segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sobre a liberdade

Eu adoraria viver em um planeta livre de preconceitos contra gays, lésbicas, negros, transexuais e mulheres. Igualmente adoraria não viver num planeta em que os novos cardápios preconceituosos estão se tornando mais populares e aceitáveis, entre eles o ódio e discriminação negativa contra pessoas brancas (vide exemplos norte-americanos com a famigerada tese da "supremacia branca") e pessoas héteros (sobre isso, leiam David Banatar em The second Sexism e Daphe Patai em Heterophobia).
 



















Por ora vou desconsiderar o problema de definir com mais precisão o que entendo por preconceito (para o que tenho em mente basta considerar algo como um juízo de valor moralmente equivocado sobre alguém ou grupo de pessoas). Isso pode ser importante de ser clarificado, sobretudo porque pessoas poderão divergir em relação ao que é preconceituoso caso não tenham claramente definido os termos. De qualquer forma, devo apenas destacar que não incluo casos de estereótipos como necessariamente preconceituosos. Há uma vasta literatura na psicologia afirmando que os estereótipos que temos são muito precisos (extensivamente defendido nos textos do psicólogo Lee Jussim). Um exemplo: Homens e mulheres diferem, em média, em interesses e comportamentos (ver Why Gender Matters do Leonard Sax e Diferença essencial do Simon Baron-Cohen). Isso é um estereótipomuito preciso e não considero preconceito afirmá-lo.


 De todo modo, há uma inescapável questão factual sobre o meu desejo: Pessoas preconceituosas sempre existiram, ainda continuam existindo e, embora parece que estão diminuindo (sobre isso leiam Steven Pinker em o Novo Iluminismo), não parece que se extinguirão por completo em qualquer escala de tempo razoavelmente humana (quero dizer com isso a escala de tempo antes que sejamos extinguidos como espécie). Nesse sentido, alguns sugerem o uso da empatia para combater discriminação. Acontece que a empatia é um dos recursos mais fomentadores de criar violência que existe. Funciona muito bem como aqueles que já gostamos, e muito mal com aqueles que não fazem parte do nosso grupo (sobre isso, leia Against Empathy do Paul Bloom). Por essas e outras penso que as políticas baseadas com foco excessivo em identidades de grupo estão indo de mal a pior (sobre isso, o cientista político com viés da esquerda americana Mark Lilla tem muito a dizer em O progressista de ontem e o do amanhã).



No entanto, o que podemos garantir alcançar numa escala de tempo razoavelmente humana é culpar e punir os criminosos que fazem algum dano às vítimas. Grosso modo, podemos fazer isso atacando as três principais manifestações preconceituosas mais comuns, ou seja: Punindo os agressores físicos, os agressores verbais, ou ambos. Algumas pessoas defendem que as três maneiras são justificadas. De minha parte, salvo raras exceções, só estou disposto a aderir ao enfrentamento (via leis) das agressões físicas. Eu entendo que muita gente fica desconfortável com isso, mas essa posição parece-me a consequência (defensável) que se segue em conceder liberdade de expressão isenta de menor restrições possíveis (e elas existem, sobre isso leiam Nigel Warburton e o seu Free Speech - A Very Short Introduction). E defender a liberdade de expressão só tem sentido se a defendemos para as coisas que mais desprezemos, do contrário não é liberdade coisa alguma (sobre isso, leia o caso do esquerdista Noam Chomsky que defendeu um nazista o seu direito de se expressar e Stuart Mill no maravilho livro Sobre a Liberdade).
A razão anterior é filosófica, mas há outras de teor pragmático. Se optarmos por calar a boca de nossos desafetos (inclusive os declarados preconceituosos), ou seja, aderir as três punições anteriores, o que pode se seguir disso? Vou dar três exemplos. Primeiro, o mais óbvio, é que nenhuma ideia desaparece da mente de pessoas só porque a forçamos por lei que não seja dita. Se alguma ideia ruim aparece no debate público precisamos nos esforçar para mostrar seus erros, e só podemos fazer isso com a livre expressão assegurada. Outra, nem tão óbvia, mas que parece-me ter suporte na psicologia, é que impedir ideias circular incentiva pessoas a formar grupos clandestinos rodeados em torno de suas ideias. Espere alguns anos de repressão contra essas pessoas e logo elas aparecerão com um imenso ressentimento e ódio exponencialmente maior. A partir daí qualquer tentativa de convencê-las com a palavra já pode ser uma vã tentativa. A última, eu confesso, é a mais pessoal. De minha parte eu prefiro saber o que pensam as pessoas com as quais eu convivo ao invés de impedi-las de falar. Se algo que elas acreditam me parece condenável, eu tenho duas opções: Posso conversar com elas (já fiz, e funcionou), ou posso me afastar (também já fiz, e quase nunca falha, pelo menos para minha saúde mental).

Reconheço que tem muita gente de boa intenção que trabalha com muito afinco para resolver os preconceitos no mundo. Muito do que já foi feito ajudou bastante ao progresso humano (de novo, sobre isso leia o Novo Iluminismo do Pinker). No entanto, daquilo que ainda sobra para resolver, sou bastante cético que algumas opções que estão aí com bastante popularidade (lei contra discurso de ódio, por exemplo) possam ser eficazes em não criar problemas piores do que já enfrentamos hoje. E mais uma coisa deve ser dita: Para as minorias, nunca houve momento histórico melhor para se viver neste planeta. E reconhecer este fato já alivia um pouco minha vontade utópica descrita no início deste texto.

Olavo de Carvalho: O Imbecil Coletivo

Decidi fazer um pouco o que poucos fazem. Fui ler um dos desacordos intelectuais meus, o Olavo de Carvalho. Li bastante do famoso O Imbecil Coletivo. Para quem não sabe, o livro é uma coleção de texto sobre vários assuntos de cultura e política. Selecionei aqui três erros e dois acertos. Não ofereço nenhuma grande razão para essa desproporção aos erros a não ser pelo fato que assim o quis ou porque é mais fácil detectar erros do que os acertos. Naturalmente que nem todos vão concordar com aquilo que considero um acerto, ou erro. Mas fazer o que, é a vida.
# Os três erros
"A confusão proposital começa nos termos mesmos em que se coloca a discussão: opções sexuais. Hétero e homossexualidade não são igualmente opções. As relações entre sexos diferentes não são uma opção livre, mas uma necessidade natural para todas as espécies animais. Já o homossexualismo não é uma necessidade de maneira alguma, mas apenas um desejo. A supressão total da homossexualidade produziria muita insatisfação em certas pessoas; a da heterossexualidade traria a extinção da espécie. Colocar essas duas orientações num mesmo plano, tratando-as como simples opções livres, é falsear na base a discussão. O homossexualismo é uma opção; a heterossexualidade é um dado."
Comentário: O livro foi escrito na década de 90. Pergunto-me se o autor já não teria atualizado sua lista de leitura. Não pode ser possível que na beirada de 2020 alguém ainda pensar que homossexualismo/homosexualdiade é uma opção. Isso já é amplamente falsificado na literatura, passando por evidências genéticas, neurológicas e hormonais: Ninguém escolhe ser hétero, tão pouco ser gay. Mas retornemos a realidade, pois na verdade há dois grandes grupos que compartilham parte dessa crença do Olavo: Os religiosos ortodoxos e os novos crentes das teorias de gêneros.
"A rejeição categórica do direito ao aborto decorre de evidências cristalinas, que só uma mentalidade torpe pode negar. Mas o mal não está nas mulheres que abortam, enganadas pelo desespero. Está no defensor do aborto, que com fala mansa pretende induzi-las a tornar-se homicidas. Caso elas aceitem a proposta, das duas, uma: ou estarão criando ainda mais um motivo de culpa, sofrimento e desespero, ou então terão de sufocar no seu coração todo sentimento de culpa, tornando-se frias e desumanas como seu pérfido conselheiro."
Comentário: Aqui o senhor Olavo mostra sua mediocridade enquanto autointitulado filósofo. Ao menos nesse texto, o sujeito não consegue seguir uma linha minimamente argumentativa em favor de sua opinião. Só o que rola é xingamento e ressentimento com toque de apelo à emoção. Carl Sagan, junto com sua mulher, que nem filósofos eram, articularam uma das defesas mais acessíveis sobre o aborto que alguém já escreveu. Só mencionei isso para ficar a dica de leitura mesmo.
"A liberalização do comércio de maconha liquidaria o tráfico ilegal, sim, mas por meio da mais gigantesca operação de lavagem de dinheiro já realizada em toda a História. Não sendo mais crime, o tráfico não poderia ser punido retroativamente, e as grandes quadrilhas internacionais entrariam num negócio legal em condições de privilégio monopolístico: já possuindo as fontes de matéria prima, o know how especializado, a aparelhagem de processamento, as redes de distribuição e a organização contábil e administrativa, dominariam instantaneamente o mercado, sendo inconcebível que os concorrentes novatos tivessem aí a menor chance."
Comentário: Nesse texto o Olavo se esforça para defender algo com mais conteúdo. Minha discordância é que ele despreza duas questões importantes: As evidências empíricas mostrando dano relativo baixo da maconha em comparação a outras drogas e não mostrando evidências a favor de sua defesa.
# Os dois acertos
"Na edição de 14 de setembro do Estadinho, suplemento infantil de O Estado de S. Paulo, Eduardo Martins, autor do Manual de Redação e Estilo desse jornal, toma a iniciativa de doutrinar as crianças contra o uso de expressões como “a situação está preta”, “negra infelicidade”, “destino negro”, etc., que a seu ver são racistas.
O uso de crianças como “agentes de transformação social” é um expediente desonesto do Estado modernizador e dos intelectuais ativistas para fazer com que as novas crenças que desejam inocular na sociedade, transportadas por pequenos inocentes úteis, possam penetrar no senso comum (no sentido gramsciano do termo) sem passarem pelo filtro da discussão consciente. Esse expediente, inventado pelos Estados totalitários, foi depois imitado pelas democracias e hoje se tornou prática corriqueira, que já nem escandaliza mais uma opinião pública extenuada pelos estupros repetidos.
No caso, porém, esse ardil torna-se ainda mais perverso porque é empregado para disseminar um hábito lesivo à inteligência: para reprimir, sob pretextos políticos de ocasião, o uso de metáforas naturais que remontam às origens da espécie humana e que se tornaram, ao longo dos milênios, fundamentos indispensáveis da nossa percepção do mundo. O simbolismo do claro e do escuro vem do tempo das cavernas, das sensações primevas de terror e deslumbramento. O negro do destino negro não é o marrom da pele dos nossos irmãos, mas a escuridão da noite. É a pura e simples ausência de luz."
Comentário: Não pude discordar nem um pouco dessas passagens. O namoro pelo controle do que pode ou não ser dito (por vezes quase paranoico) que alguns setores têm manifestado é nada mais nada menos do que assustador. O que me faz pensar que não é só pelos erros do Olavo que ele conquista a parcela da direita escabrosa do Brasil, mas é pelos seus eventuais acertos também. Pelo menos aqui ele está correto.
"Assim, por exemplo, nossos educadores julgam muito natural impingir aos jovens a leitura de Joaquim Manoel de Macedo, de Bernardo Guimarães e de toda uma plêiade de autores de segunda ou terceira ordem, por serem tipicamente nacionais, ou típicos da formação histórica nacional, ao mesmo tempo em que se omite da educação literária qualquer menção a escritores de valor muito mais alto, como Da Costa e Silva, por ser muito grego, José Geraldo Vieira, por ser excessivamente português, ou Hilda Hilst, por não ter raízes em nenhum lugar conhecido no sistema solar."
Comentário: Bem, confesso que não conhecia Hilda Hilst. Então devo agradecer Olavo de Carvalho por isso. O pouco que andei lendo gostei. Nem tudo são trevas desse homem.
# Comentário final
Definitivamente, você não precisa ler Olavo de Carvalho para saber tudo aquilo que precisa saber para não ser um idiota. Ele tem aqui e acolá algumas coisas interessantes a serem ditas, ao menos nesse livro. Mas na maior parte ele me é desinteressante. O que eu espero de filosofia, e o que eu costumo ler, é infinitamente superior a isso. Eu li porque sou curioso, e tenho uma certa dificuldade de não descansar enquanto não dou conta de matar a fome da curiosidade.
Outra coisa a se dizer é que nada do que ele disse está contido apenas nos texto dele. Eu aprendi poucas coisas novas até então, a não ser coisas pontuais como a sugestão da Hist que mencionei. Alguns dos temas que ele aborda você encontra em autores muito mais competentes e menos carregados de palavrões. Olavo de Carvalho diz que este livro é parte de uma trilogia, e recomenda fortemente ler os demais livros. Bem, eu não pretendo fazer isso. Minha curiosidade, ao menos por enquanto, já está sanada. Ademais, o homem ainda não está isento de bizarrices escritas por aí, recheada de teoria de conspirações e outros conservadorismos de costumes que não subscrevo (mas que devemos a ele o direito de pronunciá-las). De maneira geral eu diria que o Olavo sofre de um problema que vários outros guias de culto sofrem: Muitas pessoas que o cercam são mais olavetes que o próprio Olavo. Nada de novo nisso. Tem uma penca de gente aí que é mais foucaultiano que o próprio Foucault, que é mais freudiano que o próprio Freud, e por aí vai.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Os melhores filmes que eu vi em 2018

Seguindo a tradição anual (2013, 2014, 2015, 2016, 2017), divulgo aqui minha lista de todos os filmes vistos. Foram 127 filmes vistos. Lembrando que a lista dos melhores apenas incluem os filmes lançados em circuito nacional ao grande público ou festivais no de 2018.




 
10. Pela Janela (Caroline Leone, Brasil, 2017)
Rejeição, dor e uma viagem intimista. O melhor do filme é a protagonista interpretada pela Magali Biff.













9. Nasce uma estrela (Bradley Cooper, EUA, 2018)

De todos os filmes desta lista, talvez o único que não tenha sido acometido pela má sorte ou da má distribuição e/ou desconhecimento e/ou desinteresse do público. Bradley Cooper acertou em cheio na condução da pop Lady gaga.









8. Roma (Alfonso Cuarón, México, 2018)
Cuarón arriscou com uma produção pessoal, que felizmente foi lançada no Netflix. Não considero seu melhor filme (Filhos da esperança ainda mantém este lugar), mas é uma  belíssima obra.





 





 7. The Square - A Arte da Discórdia (Ruben Östlund, Alemanha, Suécia, 2017)
O sueco Östlund já havia me encantado com Força Maior. Desta vez não foi muito diferente. Uma estranheza divertidíssima.










6. O primeiro homem (Damien Chazelle, EUA, 2018)
Filmagem cirúrgica , bela e dramática. Mesmo alguns tropeços no terceiro ato não desmerece a força do filme.













5. Guerra Fria (Paweł Pawlikowski, Polônia, 2018)
Um amor impossível separado não apenas por muros, mas também por diferenças muito além dos concretos.








4. Infiltrado na Klan (Spike Lee, EUA, 2018)
Spike Lee consegue êxito em combinar seriedade com humor.













3. Em Chamas (Lee Chang-dong, Coréia do Sul, 2018)
Lee Chang-dong ainda me soa um cineasta desconhecido. Mas seu recente filme já é um convite inevitável para conhecê-lo melhor.






 



2. Paraíso Perdido (Monique Gardenberg, Brasil, 2018)
Eu entendo os vícios que o filme da Monique tem. No entanto suas virtudes são suficiente encantadores para torná-lo um dos mais saborosos do ano.







 

1. Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, EUA, 2017)
Um estilista de personalidade destrutiva interpretado por Daniel Day-Lewis pelas mãos de Paul Anderson (pelo amor de Zeus, não confundir com o terrível Paul W. S. Anderson). Não deu outra: Eis aqui uma distinta mostra de um filme competente.

Menções honrosas

Me chame pelo seu nome (Luca Guadagnino, 2017), As boas maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2017), A morte de Stalin (Armando Iannucci, 2017), Jogador número 1 (Steven Spielberg, 2018), Três anúncios para um crime (Martin Macdonagh, 2017).
Os piores
Quando a expressão "filme ruim" é eufemismo de horror. Não enquanto gênero, mas enquanto falência artística. Ao menos são divertidos em algum sentido (e cinematograficamente didático em vários).

Homem-Formiga e a Vespa (Peyton Reed, 2018)
oh, god! Um horror tedioso!

Tomb Raider: A origem (Roar Uthaug, 2018)
Tomb Raider 2 ainda é um dos meus games favoritos lá dos idos da década de 90. Mas nas telas a tragédia só aumenta a cada nova produção.

Venon (Ruben Fleischer, 2018)
Um horror tedioso que veio de outro mundo. Indescritível ruindade.

Círculo de fogo -  a revolta (Steven S. DeKnight, 2018)
Pergunto-me a mesma coisa que fiz com a continuação de Independence Day: Este filme era realmente necessário? Pois se é para induzir sono prefiro meu travesseiro.

Segue a lista de todos os filmes vistos em 2018

* péssimo
** regular
*** bom
**** ótimo
***** obra-prima


Karla - Paixão Assassina ( Joel Bender, 2006) **
Histórias que só Existem Quando Lembradas (Julia Murat, 2011) ****
Três anúncios para um crime (Martin Macdonagh, 2017) ****
O estranho que nós amamos (Sofia Coppola, 2017) ***
Logan Lucky - roubo em família (Steven Soderbergh, 2017) ***
Mulheres diabólicas (Claude Chabrol, 1960) ****
O cangaceiro (Lima Barreto, 1953) ****
Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (Macon Blair, 2017) ****
Versões de um crime (Courtney Hunt, 2016) ***
O Destino de Uma Nação (Joe Wright, 2017) ***
Porque Lutamos: A Batalha da Rússia (Frank Capra, 1943) ***
Caçador de Morte  (Walter Hill, 1978) ****
The Post: A Guerra Secreta (Steven Spielberg, 2017) ***
Todo o dinheiro do mundo (Ridley Scott, 2017) ***
Columbus (Kogonada, 2017) ****
Sem Fôlego (Todd Haynes, 2017) ***
John Wick: De volta ao jogo (Chad Stahelski e David Leitch, 2014) ***
John Wick: Um novo dia para matar (Chad Stahelski, 2017) ***
A forma da água (Guillermo del Toro, 2017) ***
Super Dark Times (Kevin Phillips, 2017) ***
O bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968) *****
Amantes (James Gray, 2008) ****
Tempo de despertar (Penny Marshall, 1990) ****
Me chame pelo seu nome (Luca Guadagnino, 2017) ****
Operação Red Sparrow (Francis Lawrence, 2017) **
A Tale of Two Sisters (Kim Jee-woon, 2009) ***
Persepolis (Marjane Satrapi/Vicent Paronnaub, 2007)  ****
Lesson of the Evil (Takashi Miike, 2012) ****
Antes Só do que Mal-Acompanhado (John Hughes, 1987) ***
Eles Não Usam Black-Tie (Leon Hirszman, 1981) ***
ABC da Greve (Leon Hirzman, 1990) ***
Pela Janela (Caroline Leone, 2017)  ****
Não me prometa nada (Eva Randolph, 2016) **
Aniquilação (Alex Garland, 2018) ***
Jogador número 1 (Steven Spielberg, 2018) ****
Depois de horas (Martin Scorsese, 1985) ****
Um lugar silencioso (John Krasinski, 2018) ***
Quadrilha maldita (Andre DeToth, 1959) ****
Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963) ****
Feitiço do tempo (Harold Ramis, 1993) ****
Cidade dos sonhos (David Lynch, 2001) *****
Up - altas aventuras (Peter Docter, 2009) *****
Monsieur Verdoux (Charlie Chaplin, 1947) ***
When I Saw You (Annemarie Jacir, 2012) ***
Os Vingadores: Guerra Infinita (Joe Russo, Anthony Russo, 2018) ***
A morta viva (Jacques Tourneur, 1943) ****
Os donos da noite (James Gray, 2007) ****
Lisa e o Diabo (Mario Bava, 1973) ***
Projeto Flórida (Sean Baker, 2017) ***
Aconteceu Perto da sua Casa ( Rémy Belvaux, André Bonzel, Benoît Poelvoorde, 1992) ***
Trama Fantasma ( Paul Thomas Anderson, 2017) *****
Era uma vez na América (Sergio Leone, 1984) ****
Eu, Tonya (Craig Gillespie, 2017) ***
Fuga para Odessa (James Gray, 1994) ***
Orfeu (Cacá Diegues, 1999) ***
O amante duplo (François Ozon, 2017) **
 Eraserhead (David Lynch, 1977) ****
O jovem Karl Marx (Raoul Peck, 2017) **
A Origem (Christopher Nolan, 2010) *****
A morte de Stalin (Armando Iannucci, 2017) ****
Cão Branco (Samuel Fuller, 1982) ****
Tomb Raider: A origem (Roar Uthaug, 2018) **
Hereditário ( Ari Aster, 2018) ***
Era uma vez no oeste (Sergio Leone, 1968) *****
Persepolis (Marjane Satrapi/Vicent Paronnaub, 2007)   ****
Pantera Negra (Ryan Coogler, 2018) ***
Círculo de fogo -  a revolta (Steven S. DeKnight, 2018) *
Sangue Selvagem (John Huston, 1979) ***
Rio Vermelho (Howard Hawks, 1948) ****
In the loop (Armando Iannucci, 2009) ***
As boas maneiras (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2017) ****
Homem-Formiga e a Vespa (Peyton Reed, 2018) **
Sonhos Roubados (Sandra Werneck, 2010) **
Como era gostoso o meu francês (Nelson Pereira dos Santos, 1971) ***
Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950) *****
Missão: Impossível - Efeito Fallout (Christopher McQuarrie, 2018) ***
Paraíso Perdido (Monique Gardenberg, 2018) *****
Sandra Chamando (João Cândido Zaccharias, 2018) ***
Yojimbo - O Guarda-Costas (Akira Kurosawa, 1961) ****
Fanny e Alexander (Ingmar Bergman, 1982) *****
Quo Vadis (Mervyn LeRoy, 1951) ***
A Ilha do Milharal (George Ovashvili, 2015) ****
First They Killed My Father (Angelina Jolie. 2017) ***
Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2015) ***
Capricórnio Um (Peter Hyams, 1977) ***
Você Nunca Esteve Realmente Aqui (Lynne Ramsay, 2017) ***
Asphalte (Samuel Benchetrit, 2015) ***
Sedução da carne (Luchino Visconti, 1955) ****
Matou a Família e foi ao Cinema (Júlio Bressane, 1969) ***
The Square - A Arte da Discórdia (Ruben Östlund , 2017) ****
O protetor (Antoine Fuqua, 2014) ***
Suspira (Dario Argento,  1977) ***
Lady Bird (Greta Gerwig, 2017) ***
O Predador (Shane Black, 2018) **
Cinzas e Diamantes (Andrzej Wajda, 1958) ***
Netto perde sua alma (Tabajara Ruas, Beto Souza, 2011) **
A morte do cervo sagrado (Yorgos Lanthimos, 2017) ***
Venon (Ruben Fleischer, 2018) *
Laura (Otto Preminger, 1944) ****
Cat People (Jacques Tourneur, 1942) ****
Cleópatra (Joseph L. Mankiewicz, 1963) ***
Nasce uma estrela (Bradley Cooper, 2018) ****
O primeiro homem (Damien Chazelle, 2018) ***
Jurassic World: Reino Ameaçado (Juan Antonio Bayona, 2018) **
Ladrão de alcova (Ernst Lubitsch, 1932) ****
Ave, César ( Ethan Coen, Joel Coen, 2016) ***
Prelúdio para matar (Dario Argento, 1975) ****
Meu Rei ( Maïwenn, 2015) ***
As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941) ****
Bohemian Rhapsody (Bryan Singer, 2018) ***
Closer - Perto Demais (Mike Nichols, 2014) *****
Halloween  (David Gordon Green, 2018) ***
4 meses, 3 semanas e 2 dias (Cristian Mungiu, 2007) ****
Assassinato num dia de sol (Guy Hamilton, 1982) ***
A morte do senhor Lazarescu (Cristi Puiu, 2005) ***
Leviatã (Andrey Zvyagintsev, 2014) ***
Tinta Bruta (Felipe Matzembacherm Márcio Reolon, 2018) ***
Um Assunto de Mulheres (Claude Chabrol, 1988) ****
Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro (Fabricio Bittar, 2018) ***
Hannah Arendt (Margarethe von Trotta, 2012) ***
Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018) ****
Roma (Alfonso Cuarón, 2018) ****
Em Chamas (Lee Chang-dong, 2018) ****
Nasce uma estrela (George Cukor, 1954) **
Guerra Fria (Paweł Pawlikowski, 2018) ****
No Coração da Escuridão (Paul Schrader, 2017) ***
 


Feminismo de virtudes

A aderência a algum tipo de feminismo está em alta. Vai desde a alguma adesão honesta e curiosa em páginas de redes sociais, passando por camisetas da Renner, tatuagens "Girl Power" e associações em coletivos. Apesar disso, o mundo atual nunca precisou tão pouco do feminismo. Disso não se segue que algumas pautas continuam sendo relevantes, como a descriminalização do aborto e uma maior atenção a profissão da prostituição (diga-se de passagem, esta última sequer é um consenso entre as pessoas feministas).
O fato é que grande parte dos problemas dos direitos relativo às mulheres já foram sanados nas sociedades ocidentais. Do ponto de vista legal, dois são dignos de nota: O direito ao voto e a liberdade ao trabalho fora de casa. Do mesmo modo, no âmbito da consciência coletiva também houve avanços reais: Demorou, é verdade, mas em tempos atuais é um compartilhamento coletivo a crença que pessoas que pensam coisas como "lugar de mulher é na cozinha" está fadado a cair no deboche, com razão, do estereótipo do sujeito que mais parece um fóssil vivo.
Por outro lado, boa parcela do feminismo atual parece estar comprometido com um desserviço à sua memória histórica. Posturas que beiram à infantilidade como "lugar de fala" e "todo homem é um estuprador em potencial" parecem cada vez mais estar ganhando espaço nos coletivos. Dificilmente alguma ganha do lesbianismo político, isto é, a crença que o homem é um mal no mundo e portanto as mulheres têm o dever de se relacionar sexualmente apenas com mulheres. Verdade seja dita, felizmente este último parece ser menos comum.
Nem mesmo alguns temas aparentemente mais dignos das pautas feministas têm sido facilmente digeridos. Sobre a questão das diferenças salariais, por exemplo, há um corpo de evidências mostrando que quando se consideram certas variáveis, como a ocupação, a posição, a formação profissional, as horas trabalhadas por semana etc., a diferença salarial entre eles desaparece. Querem saber mais sobre isso? Leiam Thomas Sowell e Warren Farrell ou a autodeclarada feminista Christina Hoff Sommers. Notem, entretanto, que raramente se discute estes autores em coletivos feministas. A ideologia cega parece estar à frente da busca desapaixonada pela verdade.
Outra atitude viciada é o constante policiamento com linchamento aos pensamentos divergentes. Eu acredito que o sexismo é um mal que vale a pena combater, mas ao mesmo tempo posso e oponho-me fortemente à caça às bruxas, à supressão da fala e ao despedimento de pessoas por expressarem ideias de que não gostamos.
No estado atual das coisas, a adesão ao feminismo, ao menos a parcela ao qual eu tenho maior contato, parece-me mais um amaciante de ego e declaração de virtude do que comprometimento honesto com causas reais.

sábado, 3 de novembro de 2018

Alimentos Orgânicos: Mais Ciência e Menos Mitologia


Um pequeno resumo da minha atual posição sobre os alimentos orgânicos.
Vou deixar de lado minha implicância barata que o termo é terrivelmente enganador (pois qual alimento que não é orgânico?) e vou me ater aos fatos.
Coloquei sob forma das alegações mais comuns e logo em seguida respondo o que penso.
Naturalmente estou disposto a rever minhas opiniões. Mas notem que na maioria dos casos eu coloquei referências científicas (e vídeos referenciando estas citações), e portanto espero respostas também referenciadas no intuito de mostrar meus erros.
Muita gente defende o uso de alimentos orgânicos mas não mexe um dedo no mouse para procurar informações relevantes. Isso fica evidente (evidência anedótica minha) quando faço a pergunta sobre o uso de pesticidas nos alimentos orgânicos. Por isso a primeira desmistificação é justamente esta.

# Não faz uso de pesticidas.
Falso.
Um dos requisitos para um alimento ser considerado orgânico é que não faça uso pesticida ou agrotóxico artificial. No entanto, os agricultores dos alimentos orgânicos usam pesticidas considerados "naturais".

Alguns exemplos de químicos usados como pesticidas naturais são encontrados aqui: http://appliedmythology.blogspot.com/2015/09/a-closer-look-at-organic-pesticides-in.html

# Alimentos orgânicos são mais seguros que os tradicionais
Não necessariamente.
Pelo fato de também fazerem uso de pesticidas (naturais), estes também sujeitas ao escrutínio quanto ao uso. Os pesticidas que os agricultores orgânicos podem usar são seguros quando usados de acordo com alguns requisitos estipulados. No que compete a isso, o padrão de uso não é muito distinto do que é usado para pesticidas sintéticos permitidos em culturas convencionais. Portanto esse padrão de segurança propagandeado pela indústria dos orgânicos não é muito promissor: Primeiro porque não é muito diferente do que se usa com os pesticidas artificiais; e segundo porque muitos dos produtos químicos mais tóxicos conhecidos são "naturais" (arsênico, por exemplo).

Não há um consenso na literatura sobre a crença que os pesticidas naturais são mais benignos que os artificiais. Por exemplo, um estudo de 2010 mostrou que os naturais tendem a ser menos efetivos e específicos. Consequentemente, acabam causando mais dano a alvos indesejados quando comparados aos pesticidas artificiais.

Fontes:

http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371%2Fjournal.pone.0011250

https://www.youtube.com/watch?v=eF_fbTbHdyg

# Os pesticidas dos alimentos convencionais são perigosos para o consumo humano.

Depende.
Historicamente, a imagem negativa dos pesticidas data da década de 60 quando ainda se fazia uso extensivo dos organofosforados. Atualmente os pesticidas usados são bem menos tóxicos. Por alguma razão, menos científica e mais política, essa imagem ainda é persistente no imaginário popular.

Comparando a existência de resíduos de agrotóxicos nos alimentos com outros alimentos massivamente consumidos, a relativa toxicidade dos atuais agrotóxicos usados na agricultura chega a ser menor que a vitamina C e a cafeína.
Os níveis de resíduos de pesticidas ao qual um consumidor está submetido chaga a ser um milhão de vezes menores do que o limite para o qual começam a aparecer danos observáveis. Para atingir o nível considerado preocupante, alguém deveria consumir algo em torno de 700 maçãs por dia, e ainda assim poderia nem mesmo ser afetado diretamente pelos pesticidas eventualmente presente. Além disso, uma simples lavagem com água corrente é suficiente para remover os resíduos de pesticidas para uma margem mais que segura para o consumo do alimento.
Trocando em miúdos: Quando se trata de resíduos de pesticidas em nossos alimentos, eles estão em níveis tão baixos que não precisamos nos preocupar com eles.
O maior dano imediato parece ser com os agricultores que têm contato direto com os pesticidas, já que a dose e a frequência que estão submetidos é maior que aquela o qual o consumidor final consome. No entanto, práticas modernas de segurança já conseguem mitigar significativamente o risco de exposição.

Fontes:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3135239/

https://ourworldindata.org/is-organic-agriculture-better-for-the-environment#note-19

https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/bk-2007-0951.ch007
https://www.youtube.com/watch?v=eF_fbTbHdyg

# O consumo de alimentos orgânicos é melhor pra o ambiente do que a agricultura convencional

Depende.
Isso só parece ser verdade, ainda que com restrições, para o redução de gases do efeito estufa. Por outro lado, o consumo de orgânicos não faz nenhum serviço para melhoria do uso da terra ou rendimento de produtividade.

Fonte:
https://ourworldindata.org/is-organic-agriculture-better-for-the-environment#note-19

# Os alimentos orgânicos são mais seguros e saudáveis que os convencionais.

Provavelmente falso.
Um estudo de meta-análise (estudo estatístico dos estudos publicados) de 2012 concluiu que a literatura publicada carece de fortes evidências de que os alimentos orgânicos são significativamente mais nutritivos do que os alimentos convencionais. Por exemplo, em alguns dos alimentos estudados foi mostrado que não há diferença significativa no conteúdo de proteínas e gorduras entre os orgânicos e os não orgânicos. Também foi discutido o fato de que contaminação por bactérias é comum nos dois tipos de alimentos; no entanto, não foi encontrado diferença estatística significante entre os alimentos orgânicos e os convencionais.
No entanto, os autores reconhecem que não há ainda estudos de longo prazo sobre a saúde comparando pessoas que consomem predominantemente alimento orgânico versus os que consomem alimentos convencionais.
Acontece que isso é relativamente normal nas ciências, e é o que normalmente se chama de problema em aberto, e novas pesquisas precisam ser feitas.

Fonte:
http://annals.org/aim/article-abstract/1355685/organic-foods-safer-healthier-than-conventional-alternatives-systematic-review

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Democracia e suas falhas: A apatia e a agressividade

   [Este texto é uma versão estendida do que foi publicado originalmente no jornal Diário Popular]




Em seu novo livro, intitulado “Contra a Democracia” (Against Democracy) — recentemente traduzido para o português —, o professor e filósofo Jason Brennan destaca a ignorância, a apatia e a truculência dos eleitores. Uma vez abordado isso, o autor disserta a possibilidade de aperfeiçoamento da atual democracia. Sua tese, embora com título provador, não é necessariamente algo inédito. Historicamente, ao menos desde Platão já são levantadas questões semelhantes.  Contudo, é na combinação de filosofia política com a descrição dos melhores resultados advindos de pesquisas que o autor se destaca. O que Brennan tem a nos dizer e como isso se espelha no Brasil atual?
O filósofo descreve três modelos arquetípicos de cidadãos: Os Hobbits, os Hooligans e os Vulcanos. As escolhas dos nomes são evidentemente referências aos filmes conhecidos da cultura popular, e ajudam lembrar melhor o que cada um deles representa. A raça dos Hobbits, no romance Senhor dos Anéis, se preocupam pouco ou quase nada com o mundo exterior, e estão constantemente satisfeitos em viver suas vidas mundanas. Por analogia, os Hobbits políticos são apáticos e, sobretudo, despreocupados com a política. Eles não têm opiniões fortes ou fixas sobre a maioria das questões. Além disso, têm pouco conhecimento científico e são em grande parte ignorante acerca dos eventos atuais e sobre história em geral. Vivem suas vidas sem dar muita importância para reflexão política. Os Hooligans políticos, por outro lado, mantêm ideias muito fortes e fixas. A característica que mais os marca é que são capazes de explicar e argumentar seus próprios pontos de vista, no entanto falham miseravelmente na tentativa de explicar adequadamente os pontos de vista daqueles com quem discordam. São enviesados, ou seja, consomem desproporcionalmente informações que confirmam suas opiniões preexistentes, evitando opiniões ou evidências que contradizem suas ideias pré-existentes. Os Vulcanos (em referência a Star Trek) pensam racionalmente sobre a política. Além disso, possuem opiniões cuidadosas baseadas no melhor e nas mais atualizadas informações científicas, sempre fundamentadas com o apoio das ciências sociais e filosofia. Eles mudam de ideia quando a evidência exige e, ao contrário dos Hooligans, são capazes de explicar e defender pontos de vista contrários sem que o sangue lhe corra aos olhos. Embora interessados em política, conseguem manter um interessante um tanto desapaixonado, visto que tentam ativamente evitar ser parcial e irracional.
Em posse desses arquétipos, Brennan nos apresenta várias razões que fundamentam algo não muito animador: A maioria dos votantes nas democracias, bem como os ativistas e os membros de partidos se comportam, em média, com as características entre Hobbits e Hooligans. Quase ninguém pode chamar-se um Vulcano verdadeiro. Para reforçar seu modelo, o autor apresenta uma extensa revisão dos melhores e mais atuais trabalhos sobre vários tópicos de pesquisa, passando por psicologia, economia e neurociência.
A conclusão geral é que política nos deixa mais burros. Na psicologia, a título de exemplo, o autor nos lembra das diversas deficiências de raciocínio que ficam ainda mais ampliadas quando o assunto é política: viés de confirmação, viés de grupo, raciocínio motivado, pressão de grupo, viés de disponibilidade, etc. Outro problema destacado pelo autor é que os eleitores quase nunca estão dispostos a fazer o trabalho custoso de colher o máximo de informações possíveis sobre um determinado assunto. Eis um exemplo: Um eleitor com fortes opiniões contra imigrantes tende a superestimar a quantidade de dinheiro gasto com ajuda aos estrangeiros, muito provavelmente porque sequer deve ter feito a tarefa mínima de cruzar dados ou ler opiniões de especialistas. Normalmente, a pessoa apenas buscará dados que reforçassem sua ideia original (talvez para inflar artificialmente estatísticas) ou acreditar em falsidades visando meramente ajustar sua crença na ideologia de interesse. E sobre a ignorância dos eleitores, alguns dados da realidade americana são assustadores. Segundo dados referenciados no livro, no ano de 1964 apenas uma minoria de cidadãos sabia que a União Soviética não era membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte; atualmente, 73% dos americanos não entendem o que foi a Guerra fria e 40% dos americanos não sabem contra quem os Estados Unidos lutaram na segunda Guerra Mundial.
Em recente entrevista, Brennan comenta algo muito razoável: Ter conhecimento, mesmo o mais básico, toma uma enorme quantidade de tempo, e isso é um tanto incompatível com a atual sociedade baseada em divisão de trabalho. Logo seria ilusório que as pessoas comuns tenham conhecimento suficiente para votar de maneira informada e inteligente sobre todos os temas. Para consertar isso, a solução seria colocar no poder as pessoas que se informam sobre o assunto. O paralelo é o seguinte: Da mesma forma que quando vamos a um médico queremos alguém competente e com credenciais para nos ajudar na nossa enfermidade, também queremos pessoas com competência e bem informadas para governar. Em outras palavras, não parece razoável que fiquemos submetidos a decisões de eleitores incompetentes, da mesma forma que não seria razoável alguém se submeter à força a um cirurgião incompetente.
Observando o modo como as democracias atuais operam, o cenário acima está longe do ideal. O que o filósofo faz no livro é discutir alternativas, não para pôr fim na democracia, mas para melhorá-la. Por isso ele endossa a chamada epistocracia, que nada mais é que a democracia fundada na episteme, ou seja, no conhecimento: Decisões políticas deveriam vir exclusivamente dos que têm conhecimento. Uma vez feito este diagnóstico, a maneira como proceder a este novo modelo democrático é o foco do restante do livro. Em uma de suas sugestões, Brennan comenta que um modo pelo qual poderíamos fazer isso é pela a imposição de um exame de qualificação eleitoral, semelhante ao exame de direção. A função basilar deste teste seria testar em nível geral o básico das ciências sociais relevantes e um conhecimento básico acerca dos candidatos, evitando dessa forma eleitores severamente incompetentes ou excessivamente mal informados.
Se o que Brennan diz está correto, e obviamente está aberto ao debate, alguns exemplos tupiniquins no cenário atual parecem ir ao encontro do que diz o filósofo. Meses atrás foi divulgado resultados mostrando que os eleitores desconheciam as mudanças da proposta da reforma trabalhista. Concomitantemente a esta informação foi comentada outra pesquisa de opinião na qual foi revelado que 81,3% dos entrevistados afirmaram que nenhum representante político tem credibilidade para efetuar reformas estruturais. Oras, isso parece sugerir que um eleitor, ao mesmo tempo, sabe muito pouco sobre a reforma e não está muito disposto a se informar. Aqui, o Breenan parece ter razão: A maioria dos eleitores oscila entre o desinteresse completo ou o interesse excessivamente enviesado, ou seja, oscilam em algo entre os arquétipos de Hobbits e Hooligans.
Em outras pesquisas empíricas discutidas no livro, conclui-se que as pessoas mais ativistas na política são as que mais tendem a ser Hooligans. Enquanto que ser exposto a pontos de vista contrários tende a diminuir o entusiasmo por suas próprias visões políticas, os cidadãos mais ativos e participativos tendem a não se envolver em muitas discussões políticas transversais. Em vez disso, eles procuram e interagem apenas com outros com quem eles já concordam. E quando perguntado por que outras pessoas possuem pontos de vista contrários, os cidadãos mais participativos amiúde respondem que os outros devem ser estúpidos ou corruptos. Segundo o raciocínio do filósofo, é muito comum o fenômeno de consenso identitário, no qual os interesses ideológicos de grupo estão acima da busca desinteressada pela verdade.
Nada disso se segue que as discussões sobre os temas atuais não deve ser feitas. É precisamente o contrário disso que a leitura do livro "Contra a democracia" urge. No entanto, o autor busca conciliar um novo modelo de democracia que dê respostas mais eficientes tendo em vista a pouca disposição ao estudo ou a inabilidade dos eleitores. As falhas na atual democracia são pouco animadoras porque é tanto uma parte culpa dos eleitores, e outra parte dos eleitos. A eleição do Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia são eventos que Brennan cita como dois exemplos atuais desses tropeços das democracias. E engana-se muito quem pensa que os políticos são parte de uma classe de iluminados que têm respostas certas para tudo. A sugestão do filósofo não é inédita porque já tivemos vários outros que a defenderam, e o primeiro deles foi um dos mais antigos. Platão foi o primeiro que se tem registro a defender a epistocracia. O que Brennan faz é retomar com vigor a proposta, apresentando sugestões de implementação na democracia atual.