sábado, 17 de julho de 2021

A metáfora das esteiras

 


Imagine a variedade de esteiras de uma academia. Diversas marcas, cada uma com níveis de velocidades distintos. Em condições normais, as pessoas escolhem as esteiras tendo em vista coisas variadas como aparência (quebrada ou nova), nível mínimo ou máximo de velocidade das esteiras, etc. De maneira geral, há uma certa flexibilidade nessas escolhas. O ativismo identitário tem nos colocado em uma situação estranha, pois força opções que não são espontâneas para as pessoas. Seria como chegar em uma academia com apenas uma esteira disponível (ou várias esteiras idênticas) que operam numa velocidade única, e cada dia de novo treino fica mais veloz. O modo de operação de vários desses movimentos é agir de forma autoritária tanto na escolha da esteira como na velocidade. Caso você não atualize suas crenças sobre determinado assunto na mesma velocidade que a esteira está rolando (aparentemente cada vez mais rápida), e que foi ditada verticalmente pelos ativistas da causa,  seus pés podem não acompanhar, e você irá tombar. Caso você exerça alguma liberdade, buscando outra esteira, mesmo com leves modificações da esteira que lhe é forçosamente ofertada, o ônus da escolha errada recai unicamente em você.

Exemplo real disso é a crença da "apropriação cultural". Conforme segue a crença dos identitários, uma mulher de pele branca não deve usar turbantes, pois isso violaria a sensibilidade de pessoas negras ao se sentirem ofendidas pelo uso inapropriado de pessoas que não tiveram ancestralidade africana (a essência identitária é óbvia ao tratar pessoas como grupos de cor de pele e não como indivíduos). Na visão dos identitários, você deve obrigatoriamente aceitar a esteira que te oferecem (ou seja, a crença em causa). Em um mundo de pluralidade de opiniões, qual seria o outro cenário possível? Alguém poderia rejeitar a crença dos identitários. Afinal, pessoas de cores diferentes não necessariamente têm culturas diferentes, o que parece fazer sentido no país como o Brasil. Além disso, a origem da peça nem é óbvio que seja de povos africanos (afinal, nada mais é que um tecido enrolado sobre a cabeça, e não seria surpresa que tivesse sido "inventado" mais de uma vez na história da humanidade). E mais, mesmo que seja plausível a origem da peça que é oferecida pelos ativistas, é possível acreditar, de forma razoável, que usar peças inventadas por outros povos ajuda, e não atrapalha, na convivência e celebração de diferentes povos (se assim não fosse, a vida cotidiana se tornaria impossível; um simples café, que não tem origem no Brasil, tornar-se-ia causa de "problematização"). Se essas crenças pudessem ser livremente oferecidas sem nenhuma punição de justiçamento social, revelariam uma sociedade inclusiva, plural e diversa. No entanto, a infelicidade é que a oferta de esteiras não está mais disponível. Como matéria de fato, alguns tentarão escolher a "esteira errada", mas não ficarão isentos da infame acusação de racismo.


A metáfora da velocidade da esteira é melhor vista na atual sigla LGBTQIA+. Boa parte das pessoas conseguem compreender as primeiras 4 letras. Essa compreensão parece ser consequência da velocidade de compreensão em que as pessoas estão dispostas a se dedicar ao assunto. Entretanto, o brasileiro médio (e suponho que quase toda a totalidade do globo terrestre) tem dificuldade de assimilar o que seriam as demais letras "QIA+".  O que fica bastante evidente é que a velocidade de atualização da sigla da diversidade sexual não é facilmente acompanhada pelo público externo ao ativismo. E dependendo da boa vontade dos identitários, alguém que emita opiniões divergentes está fadado a tombar das esteiras. Para polemizar pouco, eis um exemplo que uma pessoa com dificuldade de andar na velocidade imposta pela esteira poderia perguntar: Qual o grupo de pessoas estariam sendo excluídas se a letra "Q"  (significa "queer") fosse removida? Pois a palavra "queer" (ao contrário de gay) sequer faz muito sentido no cotidiano das pessoas. E continua o opinador do senso comum: Não seria de mais fácil aceitação que a sigla da diversidade fosse enxuta o suficiente para que pessoas que já têm suas vidas privadas bastante ocupadas com outras preocupações pudessem digerir as atualizações com maior facilidade? Pois é razoável se a velocidade da esteira está indo rápido demais com a atualização das novidades, a lentidão de muitas pessoas possa comprometer a causa em questão. O problema não é o convite de apresentação a novas esteiras coloridas para andar. A situação fica insustentável quando lhe é ofertado uma única maneira de pensamento, e se não acompanhar a velocidade das novas informações correrá o risco de acusações homofóbicas (ou seria "quuerfóbicas"?).