sábado, 18 de janeiro de 2014

Acreditando em coisas estranhas: os moais da ilha da Páscoa e o mito do uso de somente 10% do cérebro

[Texto publicado no blog da Liga Humanista Secular do Brasil - Bule Voador]


A mente humana é pródiga em dar adesão a alegações extraordinárias. Não raro uma crença popular, geralmente desprovida de justificação, serve como premissa ou sustentação de outra crença e/ou mito. Dois exemplos ilustram esse comportamento humano: as hipóteses fantásticas sobre o movimento e criação dos moais da ilha da Páscoa e a crença no mito do uso dos 10% do cérebro. Curiosamente não aparecem sempre como mitos isolados, pois muitas vezes são alegadamente complementares.
Moais. Fonte: Wikipedia.
No caso da ilha da Páscoa, a criação e movimentação dos moais suscitam diversas fantasias. O pacote de explicação inclui teses bizarras do tipo que as estátuas criaram vidas e começaram a se locomover (essa faz parte da própria tradição local)  e outras igualmente improváveis como a ajuda de extraterrestres. Sobre essa última, é reconhecido o papel de disseminação dessas ideias pelo do escritor Erich von Däniken. Ele e seus apoiadores adoram falar sobre “teorias”, mas caso estivessem comprometidos com um escrutínio sério reconheceriam que suas ideias são no máximo propostas especulativas (quando não são devaneios ou até mesmo mentiras).
Há mais de  seis décadas que a ilha da Páscoa tem sido seriamente estudada por antropólogos, historiadores e arqueólogos. Não é o intuito desse texto demonstrar os equívocos dos proponentes das ideias pouco prováveis envolvendo a ilha. De qualquer forma, parece que a sobrevivência desses mitos ocorrem em virtude da falta de informação. Por exemplo, na década de 90 um grupo de pesquisadores e cerca de 75 voluntários conseguiram erguer e transportar uma réplica de um moai de 10 toneladas fazendo uso apenas de material disponível na ilha (veja uma breve narração aqui, e a página da empreitada aqui). Mais interessante ainda é o fato de que outras expedições já haviam realizado experimentos locais similares. É o caso do famoso explorador Thor Heyerdahl, que em meados da década de 50 realizou uma expedição à ilha da Páscoa e parte de suas simulações das estátuas pode ser verificada em vídeos na web (Veja aqui, próximo aos 35 min.). Interessante notar que o explorador lançou o livro com seus relatos chamado “Aku-Aku: the Secret of Easter Island” uma década antes do famoso livro do Däniken “Eram os deuses astronautas?”. Talvez esse acontecimento exemplificaria alguma tendência de superestimar o extraordinário em detrimento da análise criteriosa.
 Outro mito popular diz respeito à capacidade do uso do cérebro para além dos 10% que os seres normais são capazes (em algumas teses alternativas a alegação é de usamos apenas um quarto do cérebro, o que revela ainda mais confusão e falta de consenso entre os propagadores de mito).
Em um estudo realizado pela neurocientista Suzana Herculano foi mostrado que no Brasil 59% das pessoas com graduação que foram entrevistadas acreditavam no mito. No livro “Os 50 maiores mitos populares da psicologia - Derrubando famosos equívocos sobre o comportamento humano”, os autores argumentam várias razões pelas quais o o uso de apenas 10% do cérebro é uma mentira. Conforme já discutido em outros textos, o livro também ressalta que o cérebro humano tem sido moldado pela seleção natural. Além disso, ele consome 20% do oxigênio respirado e representa meramente 2% do peso do corpo. Assim, além de ser um desperdício evolutivo usar apenas 10%, caso o mito fosse verdade (o que implica aceitar que 90% do cérebro seria desnecessário), haveria grande vantagem evolutiva em seres humanos com cérebros menores e mais eficientes, resultando que o caminho evolutivo mais natural fosse de eliminar indivíduos com cérebros ineficientes. Não apenas razões evolutivas confrontam o mito, mas também razões celulares e metabólicas, eletrofisiológicas, entre outras.
A movimentação dos moais na ilha da Páscoa é um tema tão fascinante para alguns que explicações mundanas parecem não ser suficientes. Daí que essa inquietação pode ser fonte de alegações extraordinárias na tentativa de explicar que as gigantescas pedras puderam ser movimentadas em virtude de seres humanos capazes de utilizar mais do que apenas os 10% do cérebro que a maioria dos mortais é capaz (algumas vezes nomeado de mana). É uma tese sedutora: se ralmente usamos apenas 10% de nossas capacidades cerebrais, então imagine o que não poderíamos ser capazes se – com um esforço e dedicação – pudéssemos trabalhar o restante que não é utilizado.
Apesar da sedução que essas histórias extraordinárias possam causar nenhuma delas é verdade. Nada mais é do que a criação de um mito em cima de outro mito.  A movimentação dos moais não exigiu nem tecnologia extraterrestre tampouco alguma capacidade extra-cerebral-humana; a história dos 10% do cérebro só convence aqueles que ainda não se tiverem vontade ou oportunidade de investigar a invericidade de uma alegação desse tipo.
Mas por que o cérebro humano é tendencioso a acreditar em coisas extraordinárias? Rascunhando um pouco uma possível resposta podemos encontrar sugestões na leitura de livros do psicólogo Michael Shermer. No livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas”, Shermer nos lembra que humanos são animais que procuram por padrões. Tentamos identificar significado ao que é complexo, além de muitas vezes desejarmos respostas rápidas às perguntas; e não raro a crença no extraordinário antecede a racionalização. Nesse sentido, o psicólogo sugere dois tipos de erros de pensamentos, a saber: Erro do tipo 1 - acreditar em algo errado, ou seja, sem evidência nenhuma (falso positivo); e erro do tipo 2 - rejeitar algo verdadeiro (a negação de um fato científico). Vale salientar que a questão não é que essas pessoas são pouco inteligentes, mas muito provavelmente o erro do tipo 1 ocorre mais em função da desinformação do que pela ignorância.
Acreditar em coisas com pouca ou nenhuma evidência parece ser o caso de pessoas dispostas a dar adesão à alegações com pouco teor de credibilidade, como o caso das ideias fantásticas sobre os moais e uso de somente 10% do cérebro.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os melhores filmes que eu vi em 2013

Costumo eleger os melhores filmes visto no ano, mas nem sempre publico essa lista. O farei esse ano. Não apenas os meus favoritos, mas a lista completa de todos que pude ver. Foram 121 filmes vistos; assim, a lista dos favoritos que segue abaixo não é exclusiva de produções de 2013 - inclui produções de qualquer ano, desde que tenha sido visto entre Janeiro e Dezembro de 2013. Dito isto, devo revelar a escolha desses filmes foi um processo difícil - foi uma lástima que excelentes produções não estiveram na lista dos 15 melhores. Isso porque durante o ano tive contato com filmes que são verdadeiras obras-primas, o que, de certa forma, acabou ofuscando um pouco as produções do ano corrente e eventualmente as de 2012. É verdade que alguns eu revi, mas mesmo assim foram catalogados como filmes assistidos, e portanto com direito a entrar na lista dos melhores. 
As duas listas abaixo não seguem ordem de preferência, mas apresenta mais ou menos a ordem dos filmes vistos. Chega de papo...

Os 15 melhores filmes



O mestre (Paul Thomas Anderson, 2012)
Anderson apresenta nessa obra mais um exemplar de sua genialidade, com uma narrativa focada em personagens brilhantemente atuado por Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman.

O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012)

Excelente representante do cinema nacional que evidencia indubitavelmente a qualidade cinematográfica do cinema pernambucano.

A paixão de Joana D`Arc (Calr Theodor Dreyer, 1928)

Uma obra-prima do cinema mudo francês - que na época inovou com o trabalho de câmera.







Filme demência (Carlos Reichenbach, 1986)

Inspirada na obra Fausto (Goethe), o filme de Reichenbach é um dos melhores exemplares do movimento nacional Cinema Marginal.

Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959)

Com essa fantástica obra Truffaut apresenta um dos filmes que marcaram o início de um dos movimentos mais importantes da história do cinema, a nouvelle vague.






Branca de neve (Pablo Berger, 2013)

Produção espanhola aparentemente esquecida inclusive pela crítica especializada, "Branca de neve" é uma das melhores surpresas do ano de 2013.







Amor pleno (Terrence Malick, 2012)

Uma poesia visual contada pela mãos do sensível Malick resultou em um dos filmes mais belos do ano.







A caça (Thomas Vinterberg, 2012)


Thomas Vinterberg já abandonou o Dogma 95, mas sua competência continua não menos impressionante do que quando foi no início de sua carreira.







Profissão: repórter (Michelangelo Antonioni, 1975)

Um clássico que retoma o tema de identidade realizado pelo italiano Antonioni.





Rush - no limite da emoção (Ron Howard, 2013)


A rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda apresentada como um estudo de personagens fez brilhar a carreira mediana de Howard. 









São Paulo Sociedade Anônima (Luís Sérgio Person, 1965)

Um dos grandes clássicos do cinema nacional continua ainda atual e brilhante.






Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)


Por muitos considerado o exemplar máximo do cinema brasileiro.








Azul é a cor mais quente (Abdellatif Kechiche, 2013)

Um filme magistral do francês Kechiche, que explora sem concessão os altos e baixo do amadurecimento de uma adolescente.




Hiroshima, meu amor (Alain Resnais, 1959)


Uma belíssima obra com temas abordando amor, guerra e saudade.








Um cão andaluz (Luis Buñuel, 1929)

O clássico de Buñuel que inicia o movimento surrealista no cinema.









Menção honrosa - nove filmes(*)



A conversação (Francis Ford Coppola, 1974)

Blue Jasmin (Woody Allen, 2013)

Festa de família (Thomas Vinterberg, 1998)

Qual o nome do bebê (Alexandre de La Patellière, 2012)

O sonho de Wadjda (Haifaa Al Mansour, 2012)

A ilha das flores (Jorge Furtado, 1989)

Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013)

Amor  (Michael Haneke, 2012)

Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013)

Lista de todos os filmes vistos

-Barbara
-Hotel Transilvânia
-A vida de Pi
-A viagem
-Amor
-Restrepo
-Django
-O mestre
-Lincoln
-A Pequena Lili
-Vinhas da ira
-Argo
-O som ao redor
-O palhaço
-Dois coelhos
-O anjo azul
-A paixão de Joana D`Arc
-Filme demência
-Superoutro
-Brasil
-O bandido da luz vermelha
-O lado bom da vida
-Os miseráveis
-Oblivion
-Lunar
-THÉRÈSE D.
-Holy Motors
-Os Incompreendidos
-Detona Ralph
-Qual o nome do bebê
-Os pivetes
-O quarto verde
-Star Trek
-Terapia de risco
-Depois de Maio
-O sonho e Wadjda
-Jogos vorazes
-A conversação
-Gomorra
-O exercício do poder
-A estrada da vida
-Guerra mundial Z
-A estrada da vida
-Noite e neblina
-Branca de neve
-Marighella
-Amarcord
-Fellini's Casanova
-Eu me lembro
-Os amantes passageiros
-Amor pleno
-E la nave va
-Esta Rua Tão Augusta
-Terra estrangeira
-Sem créditos no final
-Bye bye Brasil
-Na lata
-Satyricon
-A entrevista
-Cinema, Aspirinas e Urubus
-Árido movie
-Um conto à deriva
-A caça
-Menos que nada
-Profissão: repórter
-Círculo de fogo
-Batman
-Mi gente linda, mi gente bella
-Flores raras
-Rush - no limite da emoção
-O tempo e o vento
-Invocação do mal
-Elysium
-A conquista do espaço
-Gravidade
-Balneários
-O Homem ao Lado
-Ainda Orangotangos
-Cantando na chuva
-A fera da guerra
-Psicopata americano
-O Conselheiro do Crime
-O espadachim de um braços só
-Extermínio
-Medianeiras
-Star Trek - Além da escuridão
-Gravidade
-O dragão chinês
-Camille Claudel 1915
-Tatuagem
-Tese sobre um homicídio
-Cafundó
-São Paulo Sociedade Anônima
-Os cinco venenos de Shaolin
-O Guia do Mochileiro das Galáxias
-Blue Jasmin
-Filhos da meia noite
-O mestre invencível
-Aningaaq
-Grand Central
-A religiosa
-Tango Libre
-Eu Não Quero Voltar Sozinho
-Eu e você
-Festa de família
-Jogos Vorazes - Em chamas
-Julien Donkey-Boy
-Azul é a cor mais quente
-Lore
-Hiroshima meu amor
-Foxfire - confissões de uma gangue de garotas
-Capitão Phillips
-Mifune
-Um cão andaluz
-O Hobbit: a desolação de Smaug
-Última viagem a Vegas
-A ilha das flores
-De Costas Pra Rua - Um filme sobre Panelada
-A vida secreta de Walter Mitty
-A cidade dos amaldiçoados
-A Fúria

(*) Atualização (21.01.2014) - Inicialmente eu escolhi oito filmes. Um número totalmente arbitrário. Sendo assim, há mais de 20 dias eu sentia que havia feito uma injustiça. Votei aqui e agora sinto-me aliviado: adicionei o filme "Tatuagem", que não podia ficar de fora.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Cinema e literatura - parte 1: A qualidade de um filme independe da obra literária



Introdução
            
(Adaptação, Spike Jonze - 2002)
   
De um modo geral, há duas fontes de inspiração de um roteiro cinematográfico, a saber: um material original ou adaptado. A primeira pode ser meramente derivada de uma fonte de inspiração de um roteirista, ou até mesmo um trabalho por encomenda de alguém com pouco dote de escrita, mas que apenas teve a ideia básica de alguma história potencialmente interessante. No segundo caso, é comum que filmes sejam baseados em obras literárias. Mesmo nesse caso isso não exclui a existência de um roteirista que deve fazer a adaptação da linguagem literária para a cinematográfica. Apenas por essa breve e óbvia constatação já podemos facilmente reconhecer uma diferença básica entre literatura e cinema: enquanto a primeira é meramente textual, a segunda é majoritariamente visual. Além disso, pela simples existência de (grosso modo) metade dos filmes não serem realizados a partir de adaptações literárias já seria um forte indicativo de que essas duas expressões têm seus próprios mecanismos de geração de arte. Embora utilizem abordagens distintas não segue disso que uma é melhor que a outra; mas, sim, a realização, de ambas seguem caminhos distintos entre si. 

                Os dois principais equívocos quando alguém compara cinema e literatura podem ser resumidos da seguinte maneira: i) a tentação de qualificar o primeiro  em função do segundo e ii) a alegação que o entendimento de um determinado filme não pôde ser total em virtude do espectador não ter tido ainda a oportunidade de ler o livro.

                É natural que o sentimento de satisfação receba, na maior parte das vezes, uma avaliação superior relativo ao livro em detrimento ao filme. O filme, que evolve imagens em movimentos, acaba de certo modo escravizando e/ou desapontando as imagens mentais que o leitor eventualmente pudesse ter feito antes de assistir ao filme. Assim, a questão que deve ser ressaltada é o fato de que cinema e literatura fazem uso de abordagens e recursos distintos. 

                Pretendo mostrar que a comparação direta com o livro - no sentido de qualificar a obra cinematográfica -, é equivocada. Além disso, tentarei argumentar que uma obra cinematográfica tem vida independente da obra literária – a primeira não precisa depender de recursos externos para ser compreendida. Eventuais casos de falha no entendimento do filme se devem às escolhas narrativas e/ou temáticas equivocadas pelos responsáveis da película, e, portanto, o filme não deve precisar de apoios externos a si mesmo na tentativa de fazê-lo entender melhor.

                Esse pequeno ensaio será dividido em das partes que, embora correlacionadas, podem ser lidas de maneira independentes. 

1 -  A qualidade de um filme independe da obra literária

                O espectador ao qualificar o filme como bom ou ruim deve reconhecer um aspecto importante relativo ao ritmo de uma película. Todo roteirista está submetido ao tempo de filmagem; ou seja, independente da história contar algo sobre um dia, décadas ou a vida de uma pessoa, o tempo médio disponível é de 120 minutos. E isso já revela muito sobre as diferenças de abordagens entre cinema e literatura. No cinema, é necessário pensar as páginas como tempo, e não como texto(1). É privilégio da literatura poder estender-se em sua narrativa o quanto o autor desejar, o que ocorre, geralmente, em função do quanto o autor prefere ser detalhista na descrição dos personagens e do ambiente à sua volta. O que muitos espectadores não entendem é o que o cinema também faz essa descrição – e igualmente pode ser mais ou menos aprofundada dependendo do cineasta -, mas os recursos para executar isso são distintos aos da literatura. Em um sentido mais geral, esses recursos são específicos da composição cinematográfica; ou seja, a composição de um cenário ou do estado de espírito de uma personagem não precisa necessariamente ser feita apenas por texto. E de fato, no cinema o texto no sentido de apresentação de diálogos pode ser vista como secundário, ou pelo menos como importância comparável aos demais recursos como ausência ou presença trilha sonora, figurino, locação (externa ou interna), presença ou ausência acentuada de som ambiente, iluminação, paleta da fotografia, disposição dos objetos no cenário, atuação do ator (com foco em sua face revelando algum sentimento, ou do corpo inteiro?), etc. Nesse sentido, a montagem é importante para dar o ritmo (rápido, frenético, lento, etc.) apresentado na versão final do filme. 

              
(Ben Hur: Uma narrativa de Cristo, Fred Niblo, 1925)
 
Há filmes evidentemente descritivos sem necessidade de diálogos. Em um filme, nem tudo é explicado pelo diálogo; pois não precisa ser conduzido assim, e de fato poucas vezes o são. Por exemplo, ao utilizar planos mais longos, um realizador pode mostrar um conjunto de situações – cenário e estado de espírito de um personagem -, através de imagens, composição de quadro e elementos em cena. Ocorre que o espectador com o olho pouco treinado para todas essas riquezas visuais e auditivas poucas vezes percebe a relevância técnica na composição do filme. 

                Entre outras coisas, o tempo limitado para se contar uma história faz com que um cineasta competente faça o bom uso dos recursos supracitados. Do mesmo modo, o espectador disposto a entender melhor a linguagem cinematográfica não terá dificuldade em entender que avaliar a qualidade de um filme dever ser uma prática que depende somente do próprio filme, e de maneira alguma da sua obra de adaptação. Isso quer dizer que um livro pode ser dito melhor que o filme (ou vice-versa), mas apenas como consequência subjetiva de avaliação. Em outras palavras, a justificativa de um filme ser bom ou ruim não deve ser feita em função de uma comparação direta de duas linguagens que utilizam recursos distintos. Um livro não pode ser dito que é ruim porque não houve trilha sonora ao fundo, justamente porque isso é impossível ao recurso estritamente textual. E se uma das razões de um filme ter sido mal feito for a trilha sonora isso é culpa do próprio filme (da escolha equivocada dos realizadores), mas não da obra na qual foi eventualmente  adaptada.

               
(Fahrenheit 451, François Truffaut - 1966)
Um dos mais importantes cineastas da história do cinema, Stanley Kubrick, entendia bem essa questão que permeia a falsa comparação com a literatura, e foi feliz ao afirmar que “O cinema está mais próximo da pintura e da música do que da literatura.” Em alguns momentos da história do cinema houve cineastas que se preocuparam com a liberdade do cinema frente à literatura. Na década de 50, François Truffaut era um inquieto crítico de cinema que futuramente seria co-responsável pelo movimento nouvelle vague. Entre várias pautas defendidas pelo cineasta incluía-se a defesa de autoria sobre o diretor, enquanto criticava as adaptações literárias feitas pelos roteiristas – ou seja, na tentativa de dar voz à liberdade autoral ao diretor, Truffaut dizia que, pelo menos o cinema francês à época, ao estar à mercê dos estúdios e roteiristas, estava fazendo mais literatura do que cinema(2).
               
                Um engano comum que parece ser fonte dessa falsa analogia é a ideia de que o filme, ao passar pela avaliação do espectador, dependa única e exclusivamente do livro para ser entendido. Esse equívoco é abordado melhor na parte 2 desse ensaio, mas é relevante dizer nesse momento que existem critérios objetivos para analisar a qualidade de uma obra cinematográfica. Alguns deles são a coerência, complexidade e originalidade. Deve-se destacar que tais critérios não devem ser vistos necessariamente de maneira independentes, mas complementares. Por exemplo, um filme complexo em sua narrativa não resulta automaticamente que seja uma obra que contenha coerência ou intensidade; por outro lado, uma obra original pode ser coerente porém não complexa, e mesmo assim isso não precisa resultar em um filme ruim. E tudo isso pode ser analisado sem depender da obra literária no qual o filme teve inspiração(3).

            
(O mágico de Oz, Victor Fleming - 1939)
   
Outra evidência da independência do filme diz respeito à função que os elementos visuais tomam forma entre si. Elementos aparentemente sem importância não são colocados na tela ao acaso. Tomemos o exemplo do filme “O mágico de Oz”. O cachorro Toto pode significar várias funções: a disputa pela posse do animal causa a fuga de Dorothy; a cor acinzentada do cachorro é colocada em oposição ao brilho da cidade de Oz, criando dessa forma uma conexão entre o preto e o branco da cidade de Kansas onde o filme tem início. Portanto, é necessário enfatizar que tanto a narrativa quanto o estilo possuem funções na linguagem cinematográfica. A maneira como isso tudo é mostrado no filme que pode ser questionado e analisado, e, portanto a independência do filme com relação à obra de adaptação é algo natural e justificado.

                Compare dois exemplos (trechos) de crítica cinematográfica [O hobbit - a desolação de Smaug]. Obseve como as ideias de forma, conteúdo, coerência, complexidade e originalidade citadas acima estão presentes nos textos:


“Não acredito que seja possível dizer que A Desolação de Smaug seja melhor ou pior do que o primeiro capítulo, pois um complementa o outro e vice-versa. Há, claro, Smaug, que ocupa todo o ato final d'A Desolação, e é uma adição carismática, ameaçadora e das mais interessantes do mundo de Tolkien até o momento nas telas do cinema. Neste caso, a antecipação foi justificada, e Smaug é um personagem deveras admirável, que faz valer o segundo capítulo. O filme, se de alguma forma se diferencia do primeiro capítulo, é no tom mais sombrio – talvez um pedido dos fãs atendido por Jackson. Não há piadinhas de anões ou sobre anões (inclusive, é o filme com menos humor de todos os cinco até aqui da hexalogia) e, embora esses personagens não sejam tão admiráveis quanto Aragorn de O Senhor dos Anéis (por exemplo), apresentam algumas facetas que os tornam razoavelmente complexos (pelo menos Thorin, que apresenta sempre um ar de dualidade que coloca em dúvida até a lealdade de Bilbo para com ele).”
Fonte: Alexandre Koball, Cineplayers
 
(O Hobbit - A desolação de Smaug,
Peter Jackson - 2013)

“...os novos personagens introduzidos em O Hobbit pouco oferecem em termos de carisma ou personalidade: ora, se não demorei a memorizar nomes de atores que desconhecia antes de A Sociedade do Anel (como Dominic Monaghan, Orlando Bloom e Billy Boyd, por exemplo), posso dizer com certa tristeza que olho para a relação de nomes contida no início deste texto e não faço a menor ideia de quem interpreta qual anão da confraria (com exceção de Richard Armitage, que vive o Príncipe Thorin, e Ken Stott e James Nesbitt, que já conhecia de outros trabalhos). E o pior: não posso afirmar tampouco que queira memorizá-los, já que não deixaram qualquer impressão ao final das quase três horas em que os acompanhei pela Terra-média. Formando um grupo cujos integrantes se diferenciam apenas por suas aparências físicas, os anões de O Hobbit são um vácuo emocional e dramático – e em nenhum momento me importei de fato com o destino que teriam ao final da jornada. Por sorte, Ian McKellen retorna com a força que já esperávamos de Gandalf, demonstrando carisma, autoridade e bondade, ao passo que Martin Freeman, como Bilbo, é hábil ao explorar a hesitação e a fragilidade do personagem mesmo mantendo-se como figura periférica no filme que intitula.”
Fonte: Pablo Villaça, Cinema em cena

               Note que a comparação imediata com o livro não traria argumentação alguma para defender, do ponto de vista qualitativo, o ponto de vista da crítica. Não se afirma com isso que a crítica cinematográfica é um tribunal que julga definitivamente a qualidade da obra, tampouco o que o espectador deve ou não ver. Muito pelo contrário, a atividade crítica é um incentivo para o amadurecimento analítico do espectador com relação a uma obra de arte.  

               Apresentei nessa primeira parte algumas maneiras de identificar elementos fílmicos que auxiliam na compreensão da obra; assim, pretendi mostrar que a qualidade de uma produção deve ser analisada somente por ela mesma, de maneira a não depender da obra literária. Na próxima parte tentarei abordar um aspecto que-embora semelhante ao abordado nessa parte -, é um equívoco recorrente de parte do público: a defesa de que o entendimento do filme é sempre, ou eventualmente, melhor quando foi feita previamente a leitura do livro.

Referências

1)      Ana Maria Bahiana, Como ver um Filme.
2)      Richard Neupert, A History of the French New Wave Cinema.
3)      David Bordwell & Kistin Thompson, Film Art  - An Introduction.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

41 anos da missão Apollo 17 – e gênese do negacionismo ingênuo

[Texto publicado no blog da Liga Humanista Secular do Brasil -Bule Voador]


 Harrison Schmitt no solo lunar
O dia 11 de Dezembro é uma data de comemoração para a espécie humana. Há exatamente 41 anos, um dos programas mais ambiciosos de exploração já realizados começava a terminar. Foi o pouso na lua da Apollo 17. A sexta e última missão do projeto Apollo levou os três últimos astronautas ao nosso satélite natural, sendo a missão que mais tempo permaneceu na superfície do astro.

É verdade que o projeto Apollo estava inserido em um contexto político de corrida espacial, mas isso de maneira alguma diminui o mérito deste acontecimento que foi uma das maiores aventuras já realizadas. A mistura de curiosidade, política, ciência e tecnologia permitiu um dos maiores feitos da nossa espécie. Apesar disso, ainda hoje há pessoas incrédulas sobre a veracidade das viagens.

Rover utilizado na missão
Uma característica curiosa de uma parcela dos negacionistas é sua ingenuidade. Não raro encontramos alguns que mal sabem da existência de seis missões. Como se a quantidade de imagens que eles mesmos usam para tentar negar as idas à lua fosses apenas da missão de Julho de 1969. Nesse sentido, é interessante notar que poucos deles foquem a atenção nas outras cinco viagens – a tentativa do negaciocismo algumas vezes é tão ingênua e mal informada que parece ter pouco interesse em investigar honestamente suas proposições. Não é objetivo do presente texto rebater as mais comuns argumentações envolvendo a falsidade das viagens(1),  mas é curioso notar que a grande maioria dessas alegações são justamente os fenômenos físicos que se esperaria em um local com pouca gravidade constituído de chão lunar branco reflexivo (regolito), com relevo irregular e apenas uma fonte de luz (bandeira “tremendo”, as sombras, pegadas e a ausência de estrelas nas fotos são exemplos disso). Esse é o típico caso de uma boa aplicação do ditado popular “peixe morre pela boca”. Parece ser típico de movimentos conspiracionistas/negacionistas criarem um baluarte onde nenhuma argumentação racional tem vez.
Para entender o movimento que defende a fraude é necessário recordar pelo menos dois momentos chaves. Em 1974, o escritor William Kaysing lançava o livro intitulado “Nós nunca fomos à lua”. O livro é uma pequena obra na qual consolidou os principais argumentos que são utilizados até hoje pelos negacionistas.
A agenda conspiracionista ganhou novo impulso em 2001 com o documentário produzido pela Fox chamado “Teoria da conspiração: Nós pousamos na lua?”. Sem perder o ensejo, o pessoal da Fox decidiu que o programa seria narrado pelo ator Mitch Pileggi (famoso na época pela série Arquivo-X). Mas isso é irrelevante, pois o que realmente foi curioso é que a grande voz do documentário foi ninguém menos que William Kaysing. Depois de quase 30 anos o escritor continuava com sua rentável tese de que todo o programa de viagem à lua foi uma fraude em conjunto com a Área 51 (não poderia ser diferente!). Mais absurdo ainda, dizia que a NASA não tinha capacidade técnica de ir até a Lua, e que a pressão durante o período da guerra fria forçou os americanos a forjar toda a história da viagem. Várias mentiras e deturpações foram ditas no documentário (2), como no caso de tentativas patéticas de gerar um sentimento de aceitação do negacionismo ao dizerem que na época 20% dos americanos não acreditavam na ida à lua em 1969.

Apesar disso tudo, é verdade que não pisamos mais na lua há 41 anos. Ainda assim, sondas de pouso (não tripuladas) continuaram a ser enviadas ao solo lunar até meados da década de 70. Aliás, a negação das viagens à lua geralmente acontecem acompanhadas de desconhecimento histórico de programas espaciais paralelos. Por exemplo, apenas 7 anos após a primeira ida à lua a sonda Viking aterrissava em Marte. E se tudo correr bem haverá um novo pouso de uma sonda na lua ainda esse mês, dessa vez comandada pelos chineses.
Para aqueles dispostos a ver ou rever um pouco sobre o que acontecia há 41 anos atrás fica a dica do vídeo.

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(1)    Uma boa palestra que refuta quase todos os argumentos conspiracionistas pode ser encontrada aqui e um bom resumo escrito aqui. Escute também o áudio do programa Fronteiras da ciência da rádio da universidade da UFRGS.