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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Chamada do CNPq está apoiando pesquisa em homeopatia

   Ao abrir a página do CNPq desta semana, é possível encontrar um anúncio desconfortável. Uma chamada em parceria com a ANVISA visando apoiar financeiramente projetos que incluem estudos envolvendo homeopatia. E isso não é a primeira vez que acontece.
   O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, é uma agência do Ministério da Ciência, e desde a década de 50 tem como principais atribuições fomentar a pesquisa científica e tecnológica e incentivar a formação de pesquisadores brasileiros. Na página da agência é possível encontrar o que norteia a instituição: “Fomentar a Ciência, Tecnologia e Inovação e atuar na formulação de suas políticas, contribuindo para o avanço das fronteiras do conhecimento, o desenvolvimento sustentável e a soberania nacional.” A missão da agência é cristalina. Contudo, algumas vezes seu financiamento científico é obscurantista.
   O CNPq é um órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Trocando em miúdos, o investimento em ciência e tecnologia da instituição é adquirido através de dinheiro público. Sendo assim, há pelo menos duas responsabilidades que a instituição deve prezar — uma científica e outra moral.
   Na literatura científica é possível encontrar pelo menos 5 meta-análises (estudos sobre estudos científicos) indicando unanimemente que a homeopatia não difere do placebo. Se a homeopatia quer ser aceita como medicina ela tem que se mostrar eficaz, e ser submetida ao escrutínio científico é uma condição necessária para alcançar esse objetivo. Medicina é uma só: Se alguém faz alguma alegação extraordinária sobre um fenômeno médico, deve estar submetido ao mesmo rigor crítico que qualquer pesquisador no mundo faz sobre determinado evento. O resumo é: Um preparado homeopático não difere em nada de pílulas de farinha. Tendo em posse essas informações – qualquer pessoa pode ter acesso gratuitamente aos artigos científicos nas Universidades públicas do país –, chega ser irônico o uso de parte do recurso público (que fornece subsídio à informação e senso crítico ao indivíduo) parcialmente dividido para financiar projetos em uma linha de pesquisa cuja conclusão já foi satisfatoriamente demonstrada como ineficaz. Então é aqui que fica o questionamento moral: É correto que um órgão governamental continue promovendo recursos humanos e financeiros a uma prática contraditória aos princípios básicos de química, física e biologia, e que ainda vai de encontro aos melhores resultados científicos disponíveis? Embora de natureza um pouco distinta, é esperado que pessoas repudiem uma fraude científica. Por qual razão deixaria de ser uma discussão igualmente ética um órgão de fomento de pesquisa endossar uma prática ausente de respaldo na comunidade científica?

   Alguém poderia refutar: Só teremos condições de concluir sobre a eficácia após dedicar recursos em pesquisas. Não está errado quem alega isso, não fosse pelo fato de que a homeopatia já foi profundamente investigada (sobretudo a nível clínico — pois já foi concebido que poderia haver algum fenômeno básico ainda desconhecido a nível molecular). Nesse sentido, seria algo ao equivalente a defender recursos a uma pesquisa que quisesse novamente descobrir a roda. Além disso, a chamada de apoio financeiro ao projeto não menciona a investigação de eficácia. Ao que tudo indica já se considera a prática eficaz. Segundo o texto publicado na chamada, um dos objetivos é o “estudo para desenvolvimento de monografias de insumos ativos para uso homeopático”. Uma chamada de pesquisa deste tipo não parece fazer sentido se alguém entende que a prática não tem eficácia.
   O apoio do CNPq favorável à homeopatia contradiz o processo rigoroso de revisão por pares ao qual a prática já foi submetida. Não parece ser uma atitude virtuosa especialmente de uma agência de fomento que deveria reconhecer o estado da arte daquilo que está sendo financiado.
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Nota de esclarecimento: O autor não se opõe ao direito dos homeopatas de fazer e vender seus preparados (como já foi defendido aqui). Seria falacioso que, mesmo reconhecendo a não eficácia da prática, disso se seguisse proibição de venda e consumo — sobretudo se este comércio é exercido na esfera privada e com pleno consentimento dos envolvidos.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Medicina alternativa no SUS

Texto também publicado no blog oficial da Liga Humanista do Brasil (LiHS) - Bule Voador

Fonte: The Guardian - Peter Macdiarmid/Getty
A ciência não é, como alguns pensam, meramente um discurso engendrado através de decisões em votos de maioria. Algumas pessoas tentam justificar decisões politicamente equivocadas ao fazerem uso da alegação “discursiva” dos resultados científicos. Essa imagem pós-moderna relativista do conhecimento científico resulta em confusão na distinção da boa e da má ciência. Como disse Susan Haack, o sucesso da ciência é devido a distinção epistêmica, e não por privilégio (1). Distinção porque, a ciência bem conduzida é, assim como outras atividades humanas (história, investigação criminal e algumas vezes até mesmo o senso-comum), caracterizada por um conjunto intrincado de boas evidências.

Existe no Brasil a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC). Um de seus objetivos é incorporar e implementar a chamadas “prática integrativas e complementares” no Sistema Único de Saúde (SUS). Pergunto-me se uma política dessas não é, antes de tudo, uma deturpação daquilo que clinicamente entende-se por saúde.

Uma dos motivos alegados para a criação da PNPIC foi em virtude da crescente demanda da população. Acontece que há algo de muito preocupante quando algumas políticas públicas são tomadas para satisfazer a (suposta) maioria das pessoas: parece um flagrante exemplo de falácia ad populum, ou uma medida que é cúmplice de uma (suposta) medicina não baseada em evidências.

Dentre as práticas suportadas estão a acupuntura e a homeopatia. E nenhuma das duas têm eficácia clínica (2). Assim, uma vez no SUS, a existência do PNPIC está incentivando, por anuência governamental, uma má saúde. É no mínimo um suporte a uma (suposta) medicina no mínimo capenga e muito questionável quanto à eficácia. Acredito que o erro é, sobretudo, ético: O estado, enquanto responsável pela boa saúde pública — ou pelo menos provedor de condições mínimas de tratamento –, está agindo de maneira moralmente condenável ao permitir que práticas de eficácia duvidosa sejam disponibilizadas à população.

Entendo que há alguma maneira de compatibilizar responsabilidade pública da saúde com liberdade privada. É precisamente reconhecer que pessoas têm o direito de estudar e criar clínicas de práticas complementares e, dessa forma, quem decide por optar por elas também não podem ser impedidas. Obviamente, isso deve acontecer apenas no âmbito privado. Por outro lado, no contexto de saúde pública, os responsáveis por ela devem responder por ações que estejam alinhadas com o melhor conhecimento médico e científico no momento. E fornecer no SUS alternativas como acupuntura e homeopatia é atuar em direção oposta a isso.

No ensaio Icarus, escrito por Bertrand Russel, o autor manifestava seu receio de que a ciência pudesse ser usada para promover poder de grupos dominantes em detrimento da tornar as pessoas mais felizes. É difícil ficar indiferente a esse manifesto ao perceber que pessoas que são responsáveis por zelar por um bem de suma importância (saúde pública) são míopes em suas decisões. Nesses casos, a previsão do Russel parece se confirmar de uma maneira curiosa: ao ignorar a ciência, afastam as pessoas não apenas de seu potencial poder curativo, mas também apostam na tentativa de torná-las inimigas de algo que, pelo menos em algum aspecto, poderiam salvá-las da ignorância.

Referências

1. Haack, Susan. Manifesto de uma moderada apaixonada. Editora PUC-Rio/Edições Loyola.
2. Ernst, Edzard & Sigh, Singh. Truque ou tratamento. Editora Record.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Valorizando a astrologia

Autoconhecimento e exercício (ou apreciação) de simbolismos são duas atividades que em maior ou menor grau parecem-me relevantes para qualquer indivíduo. Por isso (mas não apenas) que pessoas gostam de música, cinema, fotografia e literatura. Adiciono nessa pequena lista a astrologia. Quando entendida como uma prática (não aquela popular das páginas finais dos jornais, pois, nesse caso, é muito mais um consumo do que prática) pode servir muito adequadamente às duas atividades supracitadas. Quando eu digo que podem é apenas isso: algumas pessoas sentem-se confortáveis e genuinamente encontram prazer em exercer práticas que satisfazem vontades particulares. E se alguém objetar que isso não fornece nenhum apoio a cientificidade da astrologia eu concordarei. Entretanto não é isso que está sendo colocado em causa. Acontece, penso eu, que é possível defender algum valor intrínseco a astrologia, mesmo que ela careça de evidências empíricas. Do mesmo modo, por exemplo, literatura e cinema não compartilham características do que tipicamente entendemos como ciência, e não por isso são destituídas de valor. Assim, outro valor pode ser atribuído: a interação com pessoas - algo que envolve, inevitavelmente, conhecer novas e, nesse processo, potencialmente permitir a descobrir mais sobre o próprio praticante.

Pode ser o caso (e parece que é) que a astrologia falhe em demonstrar efeitos empíricos observáveis no mundo. Independente disso, nenhum dos três valores -- autoconhecimento, apreciação de simbolismo e interação social --, precisam, a priori, passar por rigorosos testes de confiabilidade empírica. Até porque alguns deles, como os dois últimos, talvez nem sejam adequados a submissão de padrões universais, uma vez que envolvem subjetividades (simbolismos) e preferências (interações). Também pode ser o caso que a astrologia falhe em ser um bom método/atividade no desenvolvimento desses três valores. Ainda assim, não devemos incorrer a duas práticas comuns de alguns (apressados) detratores convencionais: i) menosprezar intelectualmente os indivíduos praticantes e ii) desconsiderar que, em todo o caso, a astrologia pode ser uma mera diversão como um passatempo qualquer, até mesmo no caso no qual os três valores não sejam considerados como dignos de atribuição. Não vejo muito problema que o não praticante não reconheça ii) como merecedor de atenção, mas parece-me condenável quando i) é excessivamente praticado.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Memória da água e coisas que os homeopatas não dizem

Estudar o processo histórico das atuais chamadas práticas complementares da medicina pode auxiliar no entendimento de como elas ainda se mantêm populares. 

Pouco antes de eclodir a segunda guerra mundial a homeopatia estava relativamente esquecida na Europa. Foi nessa época que os conselheiros médicos de Hitler o incentivaram para a retomada da prática. A razão disso parece ter sido pouco científica. O fundador da homeopatia, Chistian Hahnemann, era alemão. Assim, a tentação de retomar a prática era óbvia: isso aumentaria o sentimento nacionalista.

Essas e outras histórias estão bem relatadas no livro "Truque ou tratamento", que foi traduzida em 2013 pela editora Record. Os autores Edzard Ernst e Simon Singh ainda nos contam mais sobre a homeopatia. Coisas que geralmente os homeopatas não sabem ou escondem.

É verdade que Benveniste e colaboradores publicaram um artigo na prestigiada revista Nature. Alegação: que a água possuía memória, e de alguma maneira a ultra-diluição em preparados homeopáticos poderia reter moléculas da solução original. Como foi feito (em síntese): basófilos (uma célula sanguínea que reage a um agente alérgico específico) foram colocados em contato com soluções cada vez mais diluídas e ainda reagiram contra o componente alérgico que as compunha.

Mas também é verdade que os experimentos foram conduzidos sem rigor. Meses após a publicação um grupo de cientistas visitou o laboratório de Benveniste no intuito de acompanhar as experiências. Como a alegação era extraordinária (assim exigindo evidências igualmente extraordinárias) o grupo propôs experimentos de duplo-cego, nos quais os realizadores das experiências não saberiam previamente quais frascos continham as soluções mais diluídas (mais precisamente, o analista não saberia identificar quais as amostras de basófilos teriam sido tratadas com soluções homeopáticas e quais teriam recebido apenas tratamento com água). Isso eliminaria a tendência do laboratorista em privilegiar os resultados das amostras mais diluídas, pois as análises dependiam de certa forma de um componente subjetivo para se chegar ao resultado. Assim, constatou-se que, após essa nova batelada de experimentos, os basófilos não reagiram de maneira distinta do grupo controle contendo apenas água.

Os homeopatas ainda não dizem: a mesma revista publicou mais três artigos nos quais pesquisadores independentes falharam em repetir os resultados alegados por Benveniste. Ele também foi o primeiro pesquisador a ganhar dois igNobel (paródia do prêmio Nobel).

Desde aquela época (final de década de 80), o mágico James Randi já vinha oferecendo uma boa quantia para quem apresentasse dados convincentes da eficácia da homeopatia (ou de qualquer outra alegação extraordinária). Aliás, ele esteve presente na comissão científica da Nature para investigar os resultados do grupo liderado por Benveniste. A oferta aumentou com o passar dos anos, e hoje está em um milhão de dólares. Então, alguém arrisca?

Conclusão, homeopatia não se distingue de pílulas de farinha.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Acreditando em coisas estranhas: os moais da ilha da Páscoa e o mito do uso de somente 10% do cérebro

[Texto publicado no blog da Liga Humanista Secular do Brasil - Bule Voador]


A mente humana é pródiga em dar adesão a alegações extraordinárias. Não raro uma crença popular, geralmente desprovida de justificação, serve como premissa ou sustentação de outra crença e/ou mito. Dois exemplos ilustram esse comportamento humano: as hipóteses fantásticas sobre o movimento e criação dos moais da ilha da Páscoa e a crença no mito do uso dos 10% do cérebro. Curiosamente não aparecem sempre como mitos isolados, pois muitas vezes são alegadamente complementares.
Moais. Fonte: Wikipedia.
No caso da ilha da Páscoa, a criação e movimentação dos moais suscitam diversas fantasias. O pacote de explicação inclui teses bizarras do tipo que as estátuas criaram vidas e começaram a se locomover (essa faz parte da própria tradição local)  e outras igualmente improváveis como a ajuda de extraterrestres. Sobre essa última, é reconhecido o papel de disseminação dessas ideias pelo do escritor Erich von Däniken. Ele e seus apoiadores adoram falar sobre “teorias”, mas caso estivessem comprometidos com um escrutínio sério reconheceriam que suas ideias são no máximo propostas especulativas (quando não são devaneios ou até mesmo mentiras).
Há mais de  seis décadas que a ilha da Páscoa tem sido seriamente estudada por antropólogos, historiadores e arqueólogos. Não é o intuito desse texto demonstrar os equívocos dos proponentes das ideias pouco prováveis envolvendo a ilha. De qualquer forma, parece que a sobrevivência desses mitos ocorrem em virtude da falta de informação. Por exemplo, na década de 90 um grupo de pesquisadores e cerca de 75 voluntários conseguiram erguer e transportar uma réplica de um moai de 10 toneladas fazendo uso apenas de material disponível na ilha (veja uma breve narração aqui, e a página da empreitada aqui). Mais interessante ainda é o fato de que outras expedições já haviam realizado experimentos locais similares. É o caso do famoso explorador Thor Heyerdahl, que em meados da década de 50 realizou uma expedição à ilha da Páscoa e parte de suas simulações das estátuas pode ser verificada em vídeos na web (Veja aqui, próximo aos 35 min.). Interessante notar que o explorador lançou o livro com seus relatos chamado “Aku-Aku: the Secret of Easter Island” uma década antes do famoso livro do Däniken “Eram os deuses astronautas?”. Talvez esse acontecimento exemplificaria alguma tendência de superestimar o extraordinário em detrimento da análise criteriosa.
 Outro mito popular diz respeito à capacidade do uso do cérebro para além dos 10% que os seres normais são capazes (em algumas teses alternativas a alegação é de usamos apenas um quarto do cérebro, o que revela ainda mais confusão e falta de consenso entre os propagadores de mito).
Em um estudo realizado pela neurocientista Suzana Herculano foi mostrado que no Brasil 59% das pessoas com graduação que foram entrevistadas acreditavam no mito. No livro “Os 50 maiores mitos populares da psicologia - Derrubando famosos equívocos sobre o comportamento humano”, os autores argumentam várias razões pelas quais o o uso de apenas 10% do cérebro é uma mentira. Conforme já discutido em outros textos, o livro também ressalta que o cérebro humano tem sido moldado pela seleção natural. Além disso, ele consome 20% do oxigênio respirado e representa meramente 2% do peso do corpo. Assim, além de ser um desperdício evolutivo usar apenas 10%, caso o mito fosse verdade (o que implica aceitar que 90% do cérebro seria desnecessário), haveria grande vantagem evolutiva em seres humanos com cérebros menores e mais eficientes, resultando que o caminho evolutivo mais natural fosse de eliminar indivíduos com cérebros ineficientes. Não apenas razões evolutivas confrontam o mito, mas também razões celulares e metabólicas, eletrofisiológicas, entre outras.
A movimentação dos moais na ilha da Páscoa é um tema tão fascinante para alguns que explicações mundanas parecem não ser suficientes. Daí que essa inquietação pode ser fonte de alegações extraordinárias na tentativa de explicar que as gigantescas pedras puderam ser movimentadas em virtude de seres humanos capazes de utilizar mais do que apenas os 10% do cérebro que a maioria dos mortais é capaz (algumas vezes nomeado de mana). É uma tese sedutora: se ralmente usamos apenas 10% de nossas capacidades cerebrais, então imagine o que não poderíamos ser capazes se – com um esforço e dedicação – pudéssemos trabalhar o restante que não é utilizado.
Apesar da sedução que essas histórias extraordinárias possam causar nenhuma delas é verdade. Nada mais é do que a criação de um mito em cima de outro mito.  A movimentação dos moais não exigiu nem tecnologia extraterrestre tampouco alguma capacidade extra-cerebral-humana; a história dos 10% do cérebro só convence aqueles que ainda não se tiverem vontade ou oportunidade de investigar a invericidade de uma alegação desse tipo.
Mas por que o cérebro humano é tendencioso a acreditar em coisas extraordinárias? Rascunhando um pouco uma possível resposta podemos encontrar sugestões na leitura de livros do psicólogo Michael Shermer. No livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas”, Shermer nos lembra que humanos são animais que procuram por padrões. Tentamos identificar significado ao que é complexo, além de muitas vezes desejarmos respostas rápidas às perguntas; e não raro a crença no extraordinário antecede a racionalização. Nesse sentido, o psicólogo sugere dois tipos de erros de pensamentos, a saber: Erro do tipo 1 - acreditar em algo errado, ou seja, sem evidência nenhuma (falso positivo); e erro do tipo 2 - rejeitar algo verdadeiro (a negação de um fato científico). Vale salientar que a questão não é que essas pessoas são pouco inteligentes, mas muito provavelmente o erro do tipo 1 ocorre mais em função da desinformação do que pela ignorância.
Acreditar em coisas com pouca ou nenhuma evidência parece ser o caso de pessoas dispostas a dar adesão à alegações com pouco teor de credibilidade, como o caso das ideias fantásticas sobre os moais e uso de somente 10% do cérebro.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

12 perguntas céticas sobre astrologia

[Texto publicado no Universo Racionalista]

Manuscrito zodíaco do século 14.


Uma das crenças mais arraigadas no imaginário popular diz respeito, na sua forma tradicional, a uma possível divinação baseada na posição de astros e movimentos de corpos celestes com relação ao momento do nascimento do indivíduo. O ramo da astrologia mais popular atualmente, pelo menos no ocidente, foi estabelecido pelos gregos que basicamente fundamentaram algo que já vinha sido desenvolvido pelos babilônios 450 anos antes de Cristo.
Em virtude da popular aceitação das 12 divisões ocidentais dos signos dos zodíacos, o presente texto pretende fazer um exercício cético através de 12 perguntas céticas sobre a astrologia. Não tem intenção de ser um texto definitivo, mas apenas uma iniciação para aqueles que ainda não têm opinião formada, e para os que têm vale a provocação saudável.
É fácil encontrar excelentes textos complementares (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), bem como vídeos e áudios (aqui e aqui) sobre o assunto na internet. Além disso, estudos experimentais já foram publicados em jornais científicos avaliados por pares com o objetivo de estudar a validade da hipótese astrológica, e nenhum desses mostrou resultado favorável para a validade da prática. Em síntese, vários desses estudos mostram que não há diferença significativa entre o acaso e as previsões astrológicas. Em outras palavras, se uma pessoa não astróloga tentar divinações ela provavelmente terá uma taxa de acerto não muito distinta daquela obtida pelo astrólogo. Alguns desses estudos são: estudo empírico da personalidade e fatores astrológicos, diferenças de personalidade entre gêmeos, demonstração da não eficácia da astrologia, estudos de meta-análise (uma técnica estatística desenvolvida para integrar os resultados de diversos estudos) sugerem que os astrólogos não são capazes de predizer com significância maior seus resultados do que se esperaria se alguém fizesse semelhantes predições ao acaso.
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1) Quais os astros influenciam na astrologia?
São os planetas do nosso sistema solar, provavelmente. Mas luas, asteroides e satélites artificiais também estão presentes na via láctea. Somente em nosso sistema há dois cinturões de asteroides relevantes que no somatório de suas massas poderiam ser equivalente a massas de planetas. Além disso, é curioso que outros astros não influenciem na vida das pessoas, como galáxias, quasares e buracos negros (Ainda é importante ressaltar que praticamente todas as estrelas visíveis ao olho nu são pertencentes a nossa galáxia. Estimativas apontam para mais 170 bilhões de galáxias no Universo observável. Há dois mil anos atrás não havia telescópios, e portanto o olho humano limitado não era capaz de considerar a existências de outros objetos estelares).
 2) O planeta Terra não influencia na astrologia?
Talvez o astro mais importante, e que provavelmente poderia ter grande influência, é o planeta Terra, e que aparentemente não e é considerado pela astrologia. Apesar de não estar projetada no céu está projetada no chão. Parece-me arbitrário dizer que só o que está projetado no céu tem influencia e as demais projeções não.
3) Gêmeos monozigóticos possuem características idênticas?
Gêmeos geneticamente idênticos possuem comportamentos distintos.
 4) Em que momento você nasceu?
É difícil definir o horário que o bebê nasce. É muito arbitrário: No corte do cordão umbilical; ou na hora que enfermeira anota depois de ver o relógio, que, talvez, possa não ser exatamente o horário de fato; ou ainda é horário em que a mãe do bebê decide ser a correta, e que por motivos de exaltação emocional do momento, não é necessariamente o horário correto ("horário correto" é outra coisa de difícil definição).
 5) A previsão astrológica só funciona depois do nascimento?
Então deve existir alguma espécie de mágica na placenta que impede a astrologia ser aplicada ao feto também.
 6) A astrologia tem relação com algum componente genético?
Macacos possuem um DNA muito semelhante a nossa espécie. Talvez exista uma astrologia do macaco também. Mas é curioso que a arrogância antropocêntrica não abra espaço para esses estudos. Pois qual motivo da astrologia funcionar para uma espécie e não para outra. Se existe a relação com os genes, vale ressaltar que bananas possuem um código genético mais extenso que o do ser humano. Seria legal poder ler diariamente o horóscopo das bananas. E isso é uma hipótese bem coerente, visto que há evidências que sugerem que metade do DNA dos humanos é semelhante ao das bananas.
7)  Mera coincidência?
Dado a quantidade imensa de corpos celestes no cosmos, é improvável não encontrar uma correlação entre um determinado objeto celeste e um evento específico (desastres, posse de reis que modificaram a história, ou até mesmo acontecimentos pessoais). Entretanto, correlação não é sinônimo de causa e consequência.
 8) Astrologia é científica?
Embora possa ser uma tarefa filosoficamente extensa definir o que é ciência é possível tomar alguns atalhos que não comprometem a visão global da prática científica atual. Esta se faz através de produção de conhecimento justificado e sistematizado. Existem jornais científicos nos quais os pesquisadores submetem suas pesquisas que serão avaliados por seus pares. A astrologia não produz conhecimento sistemático, e seu objeto de estudo, se existe de fato, é confuso e obscuro. O ônus da prova de mostrar a validade da astrologia cabe aos astrólogos, e se querem o status científico devem seguir o escrutínio da mesma maneira que outras áreas seguem. Ainda assim, vários experimentos já foram realizados na tentativa de mostrar a validade da astrologia. Até o momento não existem evidências que a que funcione. Portanto, há uma garantia justificada na alegação que a astrologia não é ciência. Por outro lado, algo não ser científico não significa que não pode ser válido em alguma outra aplicação ou que sua manifestação deve ser impedida.
 9) Qual o critério da sua astrologia ser mais provável que a minha astrologia?
Somente na astrologia Hindu há três segmentos (Siddhānta, Sahitā, Horā). Além desses, atualmente ainda existem versões chinesas, tibetanas, etc. Em resumo, basta abrir o programa "stellarium” (simulador do céu de qualquer local do mundo em qualquer época), que você poderá simular as diversas constelações de diversos povos além dos citados, como egípcios, polinésios, navajo, tupi-guarani...
Naturalmente que nenhuma dessas constelações são semelhantes a constelação dos zodíacos. Justamente porque são desenhos arbitrários e distintos em cada cultura.
 10)Em que você acredita?
Desde o século 16, com a manifestação do Papa Sixtus V, a igreja cristã  tem se posicionado contra a astrologia. Alguns pensadores, como Lutero, Calvino eAgostinho de Hipona condenaram a prática da astrologia. Uma visão determinista do mundo compromete o livre-arbítrio. Além disso, a vida das pessoas poderia não ser comandada por uma entidade divina, mas sim pelos astros. Sem entrar no mérito da crença religiosa, é curioso que algumas pessoas continuam mantendo crenças que, muitas vezes por falta de reflexão crítica, são contraditórias quando comparadas.
 11)  A astrologia é dependente das constelações?
A versão ocidental da "atual" astrologia data de mais de dois mil anos atrás. Desde então pouca coisa mudou. Naquela época o sol passava por 12 constelações. Atualmente, ele passa por 13 constelações. Na prática, há uma constelação extra pela qual o sol é projetado atualmente, chamada de Ophiuchus (ou Serpentário). Isso pode ser facilmente verificado no programa supracitado ("Stellerium"), no qual é possível simular as constelações por onde o sol é projetado atualmente bem como por qual passava há dois mil anos atrás.
12) Meu signo é mesmo o que dizem?
O mesmo motivo acima que faz o sol passar por uma 13° constelação é o que faz o sol não passar atualmente pela constelação que passava há dois mil anos atrás (devido ao movimento de precessão da Terra). Ou seja, naquela época eu realmente era de câncer, porém hoje, em Julho, o sol passa pela constelação de gêmeos, e no ano 10.000, no mesmo mês, o sol estará em Peixes. Em outras palavras, no passado eu era de câncer, no presente sou de gêmeos e no futuro serei de peixes.
Link para o download do “Stellarium”, aqui.