terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

12 perguntas céticas sobre astrologia

[Texto publicado no Universo Racionalista]

Manuscrito zodíaco do século 14.


Uma das crenças mais arraigadas no imaginário popular diz respeito, na sua forma tradicional, a uma possível divinação baseada na posição de astros e movimentos de corpos celestes com relação ao momento do nascimento do indivíduo. O ramo da astrologia mais popular atualmente, pelo menos no ocidente, foi estabelecido pelos gregos que basicamente fundamentaram algo que já vinha sido desenvolvido pelos babilônios 450 anos antes de Cristo.
Em virtude da popular aceitação das 12 divisões ocidentais dos signos dos zodíacos, o presente texto pretende fazer um exercício cético através de 12 perguntas céticas sobre a astrologia. Não tem intenção de ser um texto definitivo, mas apenas uma iniciação para aqueles que ainda não têm opinião formada, e para os que têm vale a provocação saudável.
É fácil encontrar excelentes textos complementares (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), bem como vídeos e áudios (aqui e aqui) sobre o assunto na internet. Além disso, estudos experimentais já foram publicados em jornais científicos avaliados por pares com o objetivo de estudar a validade da hipótese astrológica, e nenhum desses mostrou resultado favorável para a validade da prática. Em síntese, vários desses estudos mostram que não há diferença significativa entre o acaso e as previsões astrológicas. Em outras palavras, se uma pessoa não astróloga tentar divinações ela provavelmente terá uma taxa de acerto não muito distinta daquela obtida pelo astrólogo. Alguns desses estudos são: estudo empírico da personalidade e fatores astrológicos, diferenças de personalidade entre gêmeos, demonstração da não eficácia da astrologia, estudos de meta-análise (uma técnica estatística desenvolvida para integrar os resultados de diversos estudos) sugerem que os astrólogos não são capazes de predizer com significância maior seus resultados do que se esperaria se alguém fizesse semelhantes predições ao acaso.
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1) Quais os astros influenciam na astrologia?
São os planetas do nosso sistema solar, provavelmente. Mas luas, asteroides e satélites artificiais também estão presentes na via láctea. Somente em nosso sistema há dois cinturões de asteroides relevantes que no somatório de suas massas poderiam ser equivalente a massas de planetas. Além disso, é curioso que outros astros não influenciem na vida das pessoas, como galáxias, quasares e buracos negros (Ainda é importante ressaltar que praticamente todas as estrelas visíveis ao olho nu são pertencentes a nossa galáxia. Estimativas apontam para mais 170 bilhões de galáxias no Universo observável. Há dois mil anos atrás não havia telescópios, e portanto o olho humano limitado não era capaz de considerar a existências de outros objetos estelares).
 2) O planeta Terra não influencia na astrologia?
Talvez o astro mais importante, e que provavelmente poderia ter grande influência, é o planeta Terra, e que aparentemente não e é considerado pela astrologia. Apesar de não estar projetada no céu está projetada no chão. Parece-me arbitrário dizer que só o que está projetado no céu tem influencia e as demais projeções não.
3) Gêmeos monozigóticos possuem características idênticas?
Gêmeos geneticamente idênticos possuem comportamentos distintos.
 4) Em que momento você nasceu?
É difícil definir o horário que o bebê nasce. É muito arbitrário: No corte do cordão umbilical; ou na hora que enfermeira anota depois de ver o relógio, que, talvez, possa não ser exatamente o horário de fato; ou ainda é horário em que a mãe do bebê decide ser a correta, e que por motivos de exaltação emocional do momento, não é necessariamente o horário correto ("horário correto" é outra coisa de difícil definição).
 5) A previsão astrológica só funciona depois do nascimento?
Então deve existir alguma espécie de mágica na placenta que impede a astrologia ser aplicada ao feto também.
 6) A astrologia tem relação com algum componente genético?
Macacos possuem um DNA muito semelhante a nossa espécie. Talvez exista uma astrologia do macaco também. Mas é curioso que a arrogância antropocêntrica não abra espaço para esses estudos. Pois qual motivo da astrologia funcionar para uma espécie e não para outra. Se existe a relação com os genes, vale ressaltar que bananas possuem um código genético mais extenso que o do ser humano. Seria legal poder ler diariamente o horóscopo das bananas. E isso é uma hipótese bem coerente, visto que há evidências que sugerem que metade do DNA dos humanos é semelhante ao das bananas.
7)  Mera coincidência?
Dado a quantidade imensa de corpos celestes no cosmos, é improvável não encontrar uma correlação entre um determinado objeto celeste e um evento específico (desastres, posse de reis que modificaram a história, ou até mesmo acontecimentos pessoais). Entretanto, correlação não é sinônimo de causa e consequência.
 8) Astrologia é científica?
Embora possa ser uma tarefa filosoficamente extensa definir o que é ciência é possível tomar alguns atalhos que não comprometem a visão global da prática científica atual. Esta se faz através de produção de conhecimento justificado e sistematizado. Existem jornais científicos nos quais os pesquisadores submetem suas pesquisas que serão avaliados por seus pares. A astrologia não produz conhecimento sistemático, e seu objeto de estudo, se existe de fato, é confuso e obscuro. O ônus da prova de mostrar a validade da astrologia cabe aos astrólogos, e se querem o status científico devem seguir o escrutínio da mesma maneira que outras áreas seguem. Ainda assim, vários experimentos já foram realizados na tentativa de mostrar a validade da astrologia. Até o momento não existem evidências que a que funcione. Portanto, há uma garantia justificada na alegação que a astrologia não é ciência. Por outro lado, algo não ser científico não significa que não pode ser válido em alguma outra aplicação ou que sua manifestação deve ser impedida.
 9) Qual o critério da sua astrologia ser mais provável que a minha astrologia?
Somente na astrologia Hindu há três segmentos (Siddhānta, Sahitā, Horā). Além desses, atualmente ainda existem versões chinesas, tibetanas, etc. Em resumo, basta abrir o programa "stellarium” (simulador do céu de qualquer local do mundo em qualquer época), que você poderá simular as diversas constelações de diversos povos além dos citados, como egípcios, polinésios, navajo, tupi-guarani...
Naturalmente que nenhuma dessas constelações são semelhantes a constelação dos zodíacos. Justamente porque são desenhos arbitrários e distintos em cada cultura.
 10)Em que você acredita?
Desde o século 16, com a manifestação do Papa Sixtus V, a igreja cristã  tem se posicionado contra a astrologia. Alguns pensadores, como Lutero, Calvino eAgostinho de Hipona condenaram a prática da astrologia. Uma visão determinista do mundo compromete o livre-arbítrio. Além disso, a vida das pessoas poderia não ser comandada por uma entidade divina, mas sim pelos astros. Sem entrar no mérito da crença religiosa, é curioso que algumas pessoas continuam mantendo crenças que, muitas vezes por falta de reflexão crítica, são contraditórias quando comparadas.
 11)  A astrologia é dependente das constelações?
A versão ocidental da "atual" astrologia data de mais de dois mil anos atrás. Desde então pouca coisa mudou. Naquela época o sol passava por 12 constelações. Atualmente, ele passa por 13 constelações. Na prática, há uma constelação extra pela qual o sol é projetado atualmente, chamada de Ophiuchus (ou Serpentário). Isso pode ser facilmente verificado no programa supracitado ("Stellerium"), no qual é possível simular as constelações por onde o sol é projetado atualmente bem como por qual passava há dois mil anos atrás.
12) Meu signo é mesmo o que dizem?
O mesmo motivo acima que faz o sol passar por uma 13° constelação é o que faz o sol não passar atualmente pela constelação que passava há dois mil anos atrás (devido ao movimento de precessão da Terra). Ou seja, naquela época eu realmente era de câncer, porém hoje, em Julho, o sol passa pela constelação de gêmeos, e no ano 10.000, no mesmo mês, o sol estará em Peixes. Em outras palavras, no passado eu era de câncer, no presente sou de gêmeos e no futuro serei de peixes.
Link para o download do “Stellarium”, aqui.


domingo, 6 de janeiro de 2013

O argumento non sequitur da visita extraterrestre

[Texto publicado no Universo Racionalista]

(Voyager 1)
“Somos pequenos bípedes, mas com sonhos gigantes” Poeta Diane Ackerman

A ficção científica é algo fabuloso. Embora muita coisa do nosso atual cotidiano tenha sido inspirada a partir desse gênero, e ainda continua surgindo, muitas das elucubrações e previsões continuam sendo hipotéticas e apenas desejos. Infelizmente uma dessas é a viagem interestelar. É comum ler /escutar a seguinte frase (certamente com variantes, mas vale aqui para o exercício cético):
“O homem já mandou máquinas a outros planetas, portanto acredito que extraterrestres puderam ter nos visitado no passado.”
Pretendo mostrar que este argumento é fraco, ou pelo menos é um exagero concluir visitas extraterrestres a partir dessa comparação.
Inicialmente é necessário recordar algumas definições quando estamos nos referindo a distâncias cósmicas. Uma delas é o ano-luz. Fácil: é uma medida de comprimento (e não tempo) de valor aproximadamente de 10 trilhões de quilômetros (um trilhão = 1 seguido de 12 zeros). Portanto, dado as distâncias cósmicas, é natural que se use essa escala. Porém, alguns objetos estão bem pertos da Terra, e podemos utilizar submúltiplos do ano-luz (apenas com regra de três). Exemplo de distâncias:
Terra-lua: 1,25 segundos luz
Terra-Sol: 8 minutos-luz
Por exemplo, se o sol se apagasse nesse exato momento, demoraríamos 8 minutos para perceber isso. Isso porque a luz tem uma velocidade no vácuo de aproximadamente 300 000 Km/s. Uma das consequências do trabalho de Einstein foi demonstrar que nada no Universo viaja mais rápido que a luz. Viajar nessa velocidade significa que para ir até a lua demoraríamos 1,25 segundos. Entretanto não dispomos dessa tecnologia, e é por isso que a viagem até ao nosso satélite natural será mais demorada tanto quanto mais lenta for a velocidade da nossa espaçonave.
O planeta mais distante que conseguimos mandar uma sonda com o objetivo de pousar na superfície foi em Marte (embora a sonda Huygens tenha atingido o solo da lua Titã, mais longe que Marte, isso só ocorreu uma vez e enviou sinais por 90 minutos) . O planeta vermelho dista da Terra em torno de 225 milhões de Km, o equivalente de 12,5 minutos-luz (é um valor médio, pois essa distância é variável e depende da órbita elíptica dos planetas).  Uma grande façanha, sem dúvidas. Entretanto ainda estamos no quintal cósmico. O planeta Marte faz parte de nosso sistema solar, este que ainda conhecemos deveras pouco.
Nesse exato momento temos outra razão para se orgulhar da tecnologia humana. Refiro-me a sonda Voyager, o objeto mais veloz lançado ao espaço, que partiu da Terra há 35 anos e percorreu desde então 18,5 bilhões de Km, com uma média de velocidade de 17 Km/s (~ 61 000 Km/h).
Espera-se que nos próximos anos a sonda alcance o limite de nosso sistema solar. Uma comparação útil para entender melhor a monstruosidade das distâncias envolvidas em (futuras) viagens estelares pode ser realizada através dos dados da sonda Voyager 1. Os 18,5 bilhões de Km percorridos pela sonda correspondem a aproximadamente 17 horas-luz. Na prática, isso seria o equivalente a executar mais de 1.450.000 voltas em torno do planeta Terra (quase um milhão e 500 mil voltas).  Sim, é bastante; porém perfeitamente crível dado o tempo de 35 anos que a sonda já foi lançada.
Ainda assim, o limite do sistema solar é uma distância desprezível comparada às distâncias estelares. Isso porque a distância da estrela mais próxima da Terra (próxima centauri) está a 4,2 anos-luz. Mantendo a comparação acima, viajar para esta estrela (e portanto visitar os planetas deste sistema) seria o equivalente a mais de 3 bilhões de voltas ao redor do planeta Terra. E o tempo para essa façanha? Considerando a velocidade média da Voyager, demoraria 73 mil de anos para se alcançar a próxima centauri. Esse tempo é gigantesco na escala humana; e para efeito de comparação considere que o comportamento moderno da nossa espécie foi atingindo há cerca de 50 mil anos.
Outra maneira de visualizar isso é comparar a distância da qual a sonda já percorreu até hoje, ou seja, 17 horas-luz e descontar de 4,2 anos-luz. Apenas para completar um ano-luz já seria necessária uma distância extra a percorrer de 8749 horas-luz (ou 9,4 trilhões de Km – equivalente a 730 milhões de voltas ao redor da Terra).
Vale salientar que não é somente a velocidade um fator decisivo. Uma viagem dessas exigiria uma quantidade imensa de energia. Nesse sentido, cálculos sugerem que mesmo se fosse disponível um reator de fusão nuclear (tecnologia do qual ainda não dispomos), seria necessária uma quantidade de combustível ao equivalente de mil navios supertanques, e ainda o tempo de viagem poderia ser reduzido para no máximo 900 anos. Isso motiva mais uma pergunta: como levantar a partir do solo uma massa tão gigantesca como esta? Outro interessante cálculo estima que para uma espaçonave viajar até a estrela mais próxima mantendo 70% da velocidade da luz (certamente uma façanha extraordinária, lembrando que a Voyager mantém a média de 0,005% da velocidade da luz) seriam necessários uma quantidade de energia igual a 2,6x1016 Joules (2,6 seguido de 16 zeros). Na prática, isso significa o equivalente de toda energia elétrica produzida no planeta durante 100 mil anos, e ainda assim a viagem tomaria 6 anos.
Ainda é possível questionar independente de cálculos. Uma civilização extraterrestre deve, obviamente, ser tecnologicamente capaz de enviar sondas ao nosso planeta. Isso pressupõe não somente o aparecimento de vida em outro planeta, mas também que essa vida eventualmente tenha conseguido ter uma evolução tecnológica capaz de investigar o Universo e criar máquinas inteligentes. E mais, apenas o eventual surgimento de uma civilização tecnológica não garante que ela seja capaz de vencer a dificuldade das viagens interestelares.  E mesmo que consiga, dado a vastidão do Universo, é outro desafio que o alvo da visita seja necessariamente o planeta Terra. Além disso, mesmo se todos esses requisitos fossem fáceis de ocorrer no Cosmos, ainda temos que supor o interesse de uma civilização por investigar o Universo. Quem sabe esse desejo não seja algo intrínseco a própria natureza humana; uma espécie de busca antropocêntrica para amenizar a solidão e o silêncio cósmico.
            O fato de nossa espécie humana ter interesse de investigar outros mundos e, apesar de ainda estarmos engatinhando, de fato temos visitado outros lugares no Universo não segue disso que o mesmo deva acontecer com uma civilização extraterrestre. E se ela existe (acredito que sim, e nesse sentido encontro a defesa disso através do princípio da mediocridade ou, na linguagem de Barcelos, no pluralismo), deverá vencer uma dificuldade técnica monstruosa para poder levar à cabo viagens desse tipo. Isso tudo elimina com certeza absoluta a visita de extraterrestres (no passado ou futuro)? Certamente não. Mas torna este evento muito improvável, sobretudo quando as alegações de visitas no passado carecem de evidências. Portanto, defender que extraterrestres já nos visitaram deve ir muito além de alegações ou opiniões populares com fraca justificação. A forte adesão pela vontade que algo tivesse acontecido não garante que de fato tenha ocorrido. E para avaliar isso devemos encaminhar nossa observação a um escrutínio que seja apoiado nas razões pelas quais deveríamos acreditar em algo.
(Texo também publicado no Universo Racionalista)

domingo, 4 de novembro de 2012

Em defesa do direito do aborto



Micrografia eletrônica de varredura de um blastocisto de seis dias.

Antes de discorrer sobre alguns pontos específicos é necessária uma observação prévia. Penso que o ideal é que não houvesse o aborto. Ele deve ser a decisão última da mulher. O ideal seria que em frente a um imprevisto a mulher tivesse suporte afetivo e material para lidar com uma gestação. Entretanto isto está longe de ser uma realidade. Portanto, talvez o que mais me preocupa neste tema é a LIBERDADE de opção da mulher, que não pode ser tolhida em nome de um absolutismo moral. Logo, não creio que o aborto seja a primeira opção da mulher. É uma decisão difícil, mas é um julgamento final que cabe somente a ela. Atualmente a prática é vista como crime, e além de correr o risco de pegar sentença na cadeia, ela está se submetendo a um procedimento de risco em uma clínica clandestina.
Salvo em algum momento que eu indique o contrário, durante o texto sempre que eu utilizar o termo "aborto" a referência estará relacionado ao ato da interrupção da gestação até aproximadamente oito ou dez semanas de gestação. Não tive acesso aos dados de em que momento da gravidez a mulher comete um aborto, então não incluo os números de aborto praticados no país. É necessário estipular este período em função dos argumentos que apresentarei mais adiante. Também penso que em um contexto de descriminalizarão a mulher teria acompanhamento médico e psicológico para melhor conduzir sua decisão.
O critério de quando um indivíduo começa a existir não é tão arbitrário como algumas pessoas pensam. Desta forma, é necessário diferenciar embrião de feto. O primeiro diz respeito ao período em que ocorre a diferenciação orgânica, que vai da segunda até aproximadamente a sétima semana depois da fecundação. O segundo é relativo ao estágio de desenvolvimento intra-uterino, e que tem início após oito semanas de vida embrionária (1). Embora o cérebro esteja presente a partir da nona semana, este se encontra nono início do desenvolvimento e portanto em condições mínimas de operação (2); além disso, evidências apontam que a sensação de é inexistente antes do terceiro trimestre de gestação (3). Sendo assim, o cérebro só terá sua função completa no período fetal, e não no embrionário. Desta forma, quando se interrompe uma gravidez nas primeiras semanas está se interrompendo apenas o desenvolvimento de um conjunto de células, que não possuem nenhuma capacidade de sentir dor (justamente porque o sistema nervoso ainda não existe em completo desenvolvimento). Portanto, aborto e infanticídio são duas coisas completamente diferentes. Aborto, nesse sentido, nada mais é que interromper uma gestação nos primeiros estágios.
Naturalmente que é a questão de em qual momento um organismo pode ser identificado como uma “vida” que muitos anti-abortistas tentam argumentar. Entretanto, uma crença pessoal, sobretudo neste tema, tem elevada chance de ser desprovida de justificação se não tiver consistência baseada nas evidências. Acerca do tema do aborto, penso que o Estado deveria seguir o que a ciência diz sobre quais os atributos que caracterizam a existência de um ser humano, e não o que uma crença específica julga ser verdadeiro (aqui me refiro a crença no sentido de crer em algo, do tipo “acho que...”, e não necessariamente uma crença religiosa). A medicina considera a morte cerebral como critério para dizer quando uma pessoa morreu. Sendo assim, é logicamente defensável que o Estado deveria considerar a formação do cérebro como nascimento de um indivíduo, E NÃO A FECUNDAÇÃO. Seria determinismo genético definir a existência de um indivíduo apenas por seus genes (Stephen Hawking é genial não apenas por seus genes, mas também por sua trajetória cultural e experiências de vida). Se alguém pensa que existe uma vida humana dotada de consciência em um conjunto de células desprovidas de sistema nervoso (ou seja, nas primeiras semanas de gestação) é o ônus da prova dessa pessoa demonstrar. Não é o que a ciência adota como referência.
Não raro opositores do aborto desconsideram os dados mostrados pelas evidências ou eventos naturais do corpo da mulher. Estudos sugerem que a proporção de gravidezes resultando em aborto espontâneo pode chegar a 25% (4); outra inconsistência ocorre quando aqueles que são contra o aborto, porém fazem uso da pílula do dia seguinte. Tomando a pílula, a mulher também está evitando a gravidez, e disso nada tem de muito diferente de um aborto nas primeiras semanas de gestação (visto que neste estágio não passa de um aglomerado de células). Sendo assim, o argumento de "uma vida em potencial" não procede como defesa contra o aborto, uma vez que a masturbação masculina ou os óvulos que se perdem na menstruação feminina também poderiam ser considerados como uma vida em potencial de um indivíduo. Portanto, não vejo sentido lógico impedir a mulher de fazer o aborto caso seja sua vontade.
O aborto é uma realidade no Brasil; mulheres estão morrendo diariamente ao fazerem uso de procedimentos perigosos e inadequados.  Em face disso, a ONU já se manifestou para que o país tomasse medidas mais eficazes de proteção à mulher (5). Uma pesquisa realizada pela antropóloga Débora Diniz indica que "o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar quarenta anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto." (6) A pesquisa também mostrou que a prática do aborto independe da crença religiosa, e, talvez o mais preocupante, que em cerca da metade dos casos ocorreu internação pós-aborto (para um esclarecimento mais rápido desses resultados ver a entrevista da referência 7).
A atual prática de aborto no país prejudica mais a mulher com menos condições financeiras, e não é por acaso que a curetagem liderou os procedimentos do SUS entre 1995 e 2007 (8). O Estado continua impedindo o aborto, mas gasta uma quantia elevada para pagar cirurgias de reparo das mulheres que chegam ao SUS vindo de clínicas nas quais são tratadas com o mínimo de cuidado. É uma lógica contraproducente: o Estado proíbe, mas paga para fazer reparos daquilo que ele mesmo proíbe.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a taxa de mortalidade de abortos induzidos se situa na faixa de 0,2 a 1,2 mortes para cada 100 mil abortos onde a prática é permitida. Por outro lado, nos países onde o aborto não é permitido, o número de mortes pode chegar a 330 para cada 100 mil habitantes. Em outras palavras, em países onde a prática é proibida, a mortalidade devida a abortos é mais que 300 vezes maior (9). Em face desses dados, dizer que o aborto não é questão de saúde pública é tapar os olhos para o óbvio.
Alguns tentam justificar sua posição anti-aborto através de uma opinião de que a prática não é ética nem mesmo humanista. Considero esta posição muito rasteira. Primeiro porque é uma tentativa vaga de encarar a situação de maneira unilateral; existem entidades declaradamente humanistas que são favoráveis ao aborto. Além disso, ética é uma disciplina da filosofia. Como exemplo, através do ponto de vista ético do utilitarista Peter Singer a prática do aborto pode ser plenamente defensável (10).  Tomando o problema de outra forma, o filósofo Michael Tooley (11) também defende o aborto a partir de uma análise do que significa ter direito a algo. Reconheço a existência de outros filósofos na área que se opõem ao aborto, mas citei dois apenas para mostrar que não existe um consenso absoluto do tema.
Os casos mais sensíveis são os anencéfalos. E apenas lembrando: má formação é muito diferente de anencefalia. No primeiro, dependendo do caso, o indivíduo pode viver tranquilamente - e em condições emocionalmente e materialmente satisfatórias eu não sugeriria ninguém a abortar se estivesse em pauta somente este motivo, mas, claro, a decisão última cabe somente para a mulher (e é este um direito que deve ser reconhecido para a mulher); no segundo, a chance de sobreviver é NULA (12). Sendo assim, penso ser uma crueldade OBRIGAR uma mulher a levar até o fim da gestação um feto que morrerá em poucas horas. Pelo menos neste caso nossos governantes já reconheceram que é bem menos custoso para mulher decidir pelo aborto nas primeiras semanas.
Em suma, o cenário atual coloca o Estado como um agente proibitivo de uma decisão que cabe somente ao corpo de uma pessoa. A questão aqui não é a imposição, mas a liberdade de escolha. E o Estado, e nenhuma outra pessoa, devem ditar regras com relação ao que fazemos ao nosso próprio corpo. Ter decisão sobre o próprio corpo é reconhecer um direito natural das mulheres. Portanto, tal prática não deve continuar a ser vista como um crime.

Referências 

(1) Klossner, N.J. - Introductory Maternity Nursing, 2006, pg.103
(2) http://en.wikipedia.org/wiki/Fetus#cite_note-11
(3) Lee, S.J. et al.; Fetal Pain - A Systematic Multidisciplinary Review of the Evidence; JAMA, 2005, Vol 296, n°8.
(4) Wilcox et al. 1999, New England Journal of Medicine

(10)Singer, Peter. Ética Prática. Ed. Martins Montes.
(11)Tooley, Michael. Abortion and Infanticide, Philosophy & Public Affairs, Vol.2, 1972.

Atualização (17.11.12): Este texto também foi publicado no Projeto Livres Pensadores


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Bóson de Higgs e uma reflexão sobre o método científico

[Texto publicado no Livres Pensadores]

Na primeira semana de Julho de 2012 os cientistas anunciaram fortes evidências de que o Bóson de Higgs teria sido finalmente descoberto. Segundo a física teórica, esta partícula seria a responsável por dar massa a todas as demais existentes. De maneira bem simples, vale lembrar que o fóton, outra partícula fundamental, mediadora da força eletromagnética (a luz é uma onda eletromagnética) não possui massa. Não seria nenhum exagero dizer que - segundo o modelo padrão que explica a existências das partículas -, não fosse o bóson de Higgs, não existiria no universo as “coisas com massa”; logo, não existiriam as galáxias, as estrelas, os planetas, a vida.
A “caçada” ao bóson de Higgs serve como motivação para uma reflexão tão importante quanto os resustados da ciência, aquilo que muitas vezes fica somente nos bastidores, porém é o que garante o sucesso desta atividade humana. Quando o físico britânico Peter Higgs propôs a hipótese da partícula, em 1964, a primeira revista científica para o qual ele submeteu seu trabalho (Physics Letters) rejeitou em publicar suas ideias. Em outra tentativa (Physics Letters Review), após algumas melhorias, seu trabalho foi aceito. Nota-se, portanto, que a hipótese da existência dessa partícula já existe há quase 50 anos. Foi necessária a tecnologia atual dos aceleradores de partículas para que a hipótese pudesse realmente ter sido testada. E isso não aconteceu somente com esta partícula, mas sim com várias outras. 

O poder preditivo da física teórica está exemplificado com a “caçada” ao bóson de Higgs. Determinada hipótese é levantada com fundamentos teóricos e, mesmo que ainda não sendo possível comprovar a ideia durante algum período de tempo, se tal hipótese for testável pode ser considerada científica. Nesse sentido é necessário destacar que se o bóson de Higgs não fosse descoberto não significa dizer que não foi realizado ciência; muito pelo contrário, pois a componente experimental do método não garante a satisfação subjetiva dos cientistas, mas, como já dito, podendo ser testável, é sim científico. Ainda se o bóson de Higgs não fosse encontrado, isso poderia ser, de fato, fascinante no sentido de poder abrir caminho para outras questões na física de partículas (estaria o modelo padrão equivocado, a predição do bóson em questão foi falha, o modelo padrão é apenas uma parcela de outro maior, etc.). Em outras palavras, o filósofo Thomas Khun intitularia este acontecimento como uma mudança de paradigma. Nesse aspecto, uma mudança mais recente no paradigma da ciência não é melhor que seu paradigma antigo, mas apenas diferente. Além disso, o sucesso ou não dessa “caçada” nos mostra que na ciência, ao contrário de algumas outras atividades humanas, não existe o apelo a uma autoridade, a figura inquestionável. A natureza é o tribunal final.
    O fazer científico ressalta de maneira sublime nossa ignorância sobre as coisas do mundo. Embora afirmar que o método pelo qual a ciência funciona seja o mais confiável para descobrir a natureza possa carecer de argumentos justificáveis, eu diria que o processo auto-corretivo e humilde no qual os cientistas estão submetidos garante ao método uma categoria de excelência quando o assunto é aplicação prática. Naturalmente que a ciência não se preocupa somente com questões de aplicações imediatas, e quem defende que o LHC (o equipamento construído para fazer diversos testes na área de física de partículas) foi um empreendimento muito caro talvez esteja pouco informado do real investimento da ciência no mundo. O bóson de Higgs talvez não nos traga aplicações práticas de imediato. Entretanto, quem imaginaria que no século 18, com os estudos descoberta da eletricidade, o mundo sofresse uma revolução tão gigantesca, de tal forma que se hoje nos comunicamos foi graças a essa empreitada humana de descobertas e curiosidades. Ainda mais atual, é graças a mecânica quântica que podemos fazer usos de CD, DVD e blu-ray. E mais fascinante ainda é que os problemas teóricos da física mal começaram a ser respondidos. O paradigma atual sugere que tudo o que conseguimos ver desse universo representa somente 4%. O resto? Bem, ainda é uma incógnita. Seria alguma partícula ainda para ser descoberta, ou uma nova teoria elegante (teoria das cordas)? Quando estas forem respondidos, novas perguntas certamente virão à tona. E isso inspira recordar outra peculiaridade da ciência: não é um conhecimento absoluto, pois o escrutínio das hipóteses é realizado de maneira a evitar a interferência subjetiva.  
Talvez isso tudo já tenha sido melhor explorado por Carl Sagan: “Existem muitas hipóteses na ciência que são erradas. Isso é perfeitamente correto; elas são a abertura para descobrir o que é certo. A ciência é um processo auto-corretivo. Para serem aceitas, novas ideias devem sobreviver aos mais rigorosos padrões de evidência e escrutínio.”

OBS.: este texto não explica com detalhes o que é o bóson de Higgs, nem era a intenção. Para saber veja:
- Ciência no Cotidiano : o bóson de Higgs ou a partícula de Deus - http://www.youtube.com/watch?v=RBchi6xKmTI
- Fronteiras da ciência (rádio universidade da UFRGS, episódios 12 e 17): http://www6.ufrgs.br/frontdaciencia/